Em algumas cidades do Brasil existem rádios que prestam serviço de obituário, quanto contratadas pelos familiares do falecido. A rádio que o meu pai escutava enquanto fazia nossos churrascos de final de semana ou enquanto dirigia o seu carro, fazendo as vezes de nosso transporte escolar, prestava tal serviço. O texto era apresentado por um locutor de voz nem fina e nem grossa. Em tom solene, no modo mais informativo possível. Ele nos dava a funesta notícia sempre assim: “Falecimento. Ocorreu hoje o falecimento de Guilhermina Moraes dos Santos. O velório está sendo realizado na capela C do Cemitério João Vinte e Três. O féretro sairá às 16 horas quando ocorrerá o sepultamento. Noticiamos o falecimento de Guilhermina Moraes dos Santos.”
Um detalhe que me chamava a atenção era essa volta no final, quando ele repetia o nome do falecido(a), talvez com a intenção de informar o incauto que por acaso ligasse o radio no meio da nota. Lembro-me muito bem também, que ao ouvir a palavra féretro, um calafrio percorria a minha espinha, até eriçar os meus cabelos, até o dia em que resolvi perguntar para a minha mãe que diabos significava aquela palavra de sonoridade lúgubre. “Caixão”, ela disse. “Quando ele fala o féretro sairá tal hora, é quando as pessoas carregam o caixão e todos vão em procissão respeitosa até o local onde ele vai ser enterrado.” Após o esclarecimento feito pela minha mãe, os calafrios não só continuaram a ocorrer sempre que ouvia aquela palavra, como intensidade destes passou a ser dobrada.
Mas depois de muitos e muitos anos, essas notas de falecimento tornaram-se uma lembrança um tanto pitoresca da minha infância. O fato mais curioso foi ficar sabendo o que ocorrera com aquele locutor. Sim, porque aquela voz, nem fina e nem grossa, ficou para sempre relacionada ao infortúnio. Aquele timbre metálico e sem emoção era a lembrança da nossa finitude. Era, no mundo dos vivos, o voz do ceifador. Anunciando que, da próxima vez, quem sabe não estou falando de você. Termo seu nome pronunciado pelo dono daquela voz era a última coisa que qualquer um iria querer.
O dono daquela voz se chamava Watson Mendes. Exatamente. Os pais, fãs da obra de Artur Conan Doyle batizaram o filho com o nome do companheiro inseparável de Sherlock Holmes. Isso por si só ja deveria ser um prenúncio de que alguma coisa estranha espreitava aquela criança. Os pais se defendiam, dizendo que Sherlock, seria muito mais estranho, ao que os interlocutores faziam sua tréplica perguntando porque então não batizaram o pobre menino com o nome de Artur. Fato é que Watson foi e Watson ficou.
Watson sempre quis trabalhar em rádio e a chance veio como o locutor da má nova. Ele não se importou. Achou que aquela era a porta de entrada para uma brilhante carreira no rádio, não se importando muito que aquela fosse a porta do cemitério. E aquela, que seria a oportunidade de ouro transformou-se em seu fardo. Na rádio constantemente almoçava sozinho, separado dos colegas, afinal, quem em sã consciência abocanharia um pedaço do suculento bife de alcatra servido na cantina da rádio, ouvindo o Watson contar uma piada? Aquela voz a lembrar que aquele pedaço de bife poderia entalar na garganta e…fim de linha.? Não. Deixa ele lá com os seus mortos.
Mas se vocês pensam que isso ocorria apenas na rádio enganam-se. Mesmo nas coisas mais simples, como perguntar ao empregado de um supermercado onde ficava o papel higiênico era uma causa perdida. Não era raro o pobre funcionário ao ser indagado pelo Watson com aquela voz incofundível sair correndo como se tivesse visto o ceifador em carne putrefada e ossos. Coube ao Watson decorar onde ficavam todos os utensílios que precisava dentro do supermercado. Tudo sempre ia bem até que algum gerente, num espasmo de arqutiteto resolvesse mudar a distribuição das coisas para fazer o pobre Watson ter que aprender tudo de novo. Perguntar onde ficavam as coisas decididamente não era uma opção válida.
nEm bares, o Watson, fazia sucesso, conquanto seguisse de boca fechada. Era até que bem apessoado e não raramente recebia olhares lânguidos de mulheres prontas a serem saciadas. Mas era abrir a boca para ouvir todo o tipo de desculpa como “preciso ir ao banheiro” e pronto. Iam ao banheiro como aquele marido que ia comprar cigarros e nunca mais voltavam. O pior é que nem a saída óbvia para o alívio dos desejos mais animais de um homem era-lhe possível. Nos puteiros da vida, o pobre Watson não chegava nem a discutir o preço. Muito antes disso, aquelas pobres mulheres, cheias de culpa, fugiam dele, apavoradas e pedindo perdão a Deus de mãos estendidas aos céus. Diz-se que muitas viraram freiras só por ouvir a voz do fim dos tempos.
Ele tentou algumas táticas que o ajudaram por uns tempos. Como era um grande imitador, Watson muitas vezes recorria a outras vozes para ter sucesso em coisas triviais como ir a uma farmácia – longe do seu bairro, ja que onde morava todos sabiam quem era ele – para comprar aparelhos de barba, mercurio cromo e aspirina. Imitava o Silvio Santos, o Lula, o Francisco Cuoco e até a falecida Aracy de Almeira. Muitas vezes ele imitava vários deles na mesma compra. No inicio achavam engraçado, mas como ele nunca mostrava a voz verdadeira passaram a achá-lo desprovido de razão. Um maluco, enfim.
Watson tornou-se taciturno, recluso, pensou em dar fim a vida. Até que um dia o telefone tocou. Ele olhou para o aparelho pensando em não atender, ja que sempre que depois de falar “alô”, seja quem fosse do outro lado da linha prontamente desligava o aparelho. Decidiu então fazer um jogo. Iria atender. Se a pessoa falasse com ele, iria continuar vivendo. Se, como sempre, desligassem na sua cara, iria tirar a própria vida. E outro que noticiasse o seu falecimento na rádio.
– Alô?
– É o Watson, da radio? – fala uma voz feminina do outro lado.
– É ele mesmo.
– Fala mais, fala mais.
Aquele diálogo ja atingira um tempo recorde. Mas uma mulher pedindo para ele falar mais? Com a própria voz?
– Aqui é o Watson. Quem esta falando aí. É trote?
– Ai meu Deus, fala “falecimento” que nem você fala na rádio.
– Minha filha, isso não tem graça.
– Fala, fala, vai. Ta todo mundo esperando aqui.
– Todo mundo quem?
– Meus amigos. O telefone ta no viva voz.
– Falecimento.
Gritos no outro lado do telefone. O Watson,quem diria, tinha uma legião de fãs entre os góticos. Tornou-se celebridade nas festas góticas da cidade. Gravaram até uma música que virou hit entre a tribo. Tinha uma parte que dizia:
“O anjo da morte tem uma voz,
que anuncia o seu fim,
pode ser engasgado com uma noz,
pode ser com um tiro no seu rim”
E depois desse refrão, ouvimos a voz solene do Watson”
“Falecimento”.