Henrique andava pelo saguão do aeroporto procurando pelo portão de embarque número dois. Não eram passos decididos, pelo contrário, eram titubeantes e tornavam-se cada vez mais titubeantes à medida em que a hora da decolagem se aproximava. Na verdade suas pernas tinham uma certeza, que era compartilhada com o seu cérebro: ele não queria embarcar. Exatamente como em todas as outras vezes que tinha que voar por força do seu trabalho. Suas pernas desejavam ardentemente levar o resto do corpo para fora daquele aeroporto, para um lugar seguro, ao nível do mar. Mas o seu senso do dever era muito mais forte. Ele odiava aquele senso de dever. Só não o odiava mais do que a idéia de intrometer-se dentro de um avião hermeticamente fechado, alçar vôo e permanecer a dez mil metros de distância do chão por um longo período, o que significava qualquer coisa acima de trinta segundos.
Em seu caminho para a sala de embarque, viu, em néon, três letras que poderiam abrandar o seu sofrimento: bar. Consultou o relógio, que costumava usar no pulso direito. Ainda faltava um bom tempo para a decolagem. Valia a pena parar e tomar um uísque, talvez dois, a fim de tornar aquela viagem mais agradável, ou, melhor dizendo, menos desagradável. O barman trouxe-lhe um duplo. Enquanto bebia, Henrique tentava alcançar o motivo de todo aquele medo que o obrigava a fazer um esforço sobre humano toda vez que precisava voar. Nunca tinha tentado uma análise de sua situação e aquele momento pareceu-lhe muito propício.
Olhando absorto o vai e vem nervoso e apressado dos transeuntes pelo saguão do imenso aeroporto, ele pôs-se a escarafunchar suas memórias algum momento em que puesse ter começado a relação malfadada com as alturas. Lembrou-se da figueira. De uma enorme e frondosa figueira que ficava nos fundos do sítio de seu avô. Quando pequeno, ele sempre teve uma, digamos, alma de explorador. Intrépido e curioso, tinha mania de escalar muros, dunas de areia, árvores só para ver como o mundo era lá de cima. Outro de seus passatempos prediletos era o de se enfiar por encanamentos para ver onde davam. Aquela figueira era o maior dos desafios e ainda vinha com um bônus que a tornava mais desafiadora. O fato de a sua mãe o proibir terminantemente de subir naquela árvore.
Graças a vigilância constante da mãe, ele foi obrigado a suprimir o seu espírito em todas as vezes que visitavam o sítio. Mas, ao contrário de toda a criança, Henrique era paciente. Sabia que um dia a sua mãe iria relaxar a vigilância. E quando aconteceu – ele lembra que fazia um calor infernal naquele dia e a mãe havia pego no sono, deitada em uma rede que ficava no alpendre onde sempre soprava uma aragem agradável – ele não perdeu tempo. Dirigiu-se passo a passo na direção da árvore até chegar a um metro de seu espesso tronco. As raízes enormes que mostravam seu dorso sobre o solo poderiam causar tropicões por quem ali passasse com desatenção. Com o coração acelerado, ele passou mirar a árvore com reverência, de baixo para cima, acompanhando a linha do tronco até chegar a copa que se espalhava para todos os lados num emaranhado de galhos de todos os calibres e folhas de todos os tamanhos, produzindo uma sombra cuja área parecia ter o tamanho de um país. Ele estudou tudo, as saliências na casca, os sulcos, nenhum detalhe que pudesse ajudar em sua escalada passou despercebido. Com o coração ainda mais acelerado, ele começou a sua escalada.
Após os primeiros minutos em que ele quase caiu por duas vezes, a relação entre ele e a figueira atingiu um nível que ele nunca poderia imaginar. Era como se os dois pudessem se entender apesar de pertencerem a reinos tão diferentes na classificação dos seres vivos. Era como se ele e a figueira estivessem em comunhão, algo telepático. Henrique poderia jurar que estava sendo ajudado pela árvore. Sulcos que antes não estavam no tronco passaram a surgir debaixo de seus pés. Saliências simplesmente apareciam do nada, facilitando o apoio de seus pezinhos. Já bem no alto, teve a certeza de que, por duas vezes, galhos se estenderam em sua direção para que pudesse chegar ainda mais alto. Henrique lembrava o júbilo que sentia naquele momento, fazendo o seu peito estufar. Ele era o menino que tinha amigos na natureza. O menino que se comunicava com as árvores. Ele estava chegando ao topo da rainha das todas as árvores. Aquele momento de suprema glória que estava experimentando e que encheria qualquer um de seus amigos de inveja simplesmente se desvaneceu no momento em que ouviu o seu nome gritado de uma maneira seca, irritada e que vinha de muito, mas muito abaixo de onde estava.
O pequeno Henrique virou sua cabeça para aquela voz e os seus olhos encontraram os olhos irritados de sua mãe recém acordada. Depois do choque, da surpresa, ele percebeu que os olhos da sua mãe mudavam de expressão. De irritados passaram lentamente a ficar apreensivos. E também estavam se aproximando, como se ela estivesse flutuando em sua direção. Era claro que isso seria impossível e só poderia estar acontecendo o contrário. Ele é que estava descendo em direção a ela. Ele estava caindo. E, por alguns instantes, isso não pareceu nenhum problema, pois ele sabia que a sua amiga figueira iria salvá-lo. Estava quase certo que ela esticaria um galho e que ele seria salvo de atingir o chão. Mas se a gravidade fazia o seu trabalho, a figueira não. Ele até poderia jurar que a árvore recolhera um ou dois galhos para que ele não pudesse se salvar. Ele atingiu o chão com relativa força. A mãe veio correndo, levantou-o imediatamente e, após apalpá-lo de cima a baixo e disparar um monte de perguntas sobre a sua condição física, percebeu que nada passara de um susto. E a partir daí, a preocupação da mãe foi substituída por aquela irritação anterior. Saiu de lá puxado pela mãe que não cansou de listar um monte de coisas que ele estaria privado de fazer durante toda aquela semana por conta da desobediência. Ele ainda teve tempo de virar para trás e dar uma última olhada na figueira. Ele jura que ela tremia, como que rindo de seu infortúnio. Talvez a figueira fosse mais amiga de sua mãe do que dele afinal. A voz monotônica, vinda dos alto- falantes, anunciavam o embarque do seu vôo. Dirigiu-se para o embarque com o medo de sempre. Mas com um novo objetivo. Voltaria para o sítio e acertaria contas com aquela figueira. E o melhor é que para lá, ele podia viajar de carro.