O Cavinato é um imã que atrai problemas de toda sorte. É o mais argentino dos brasileiros. Na verdade, é mais argentino do que milhões de argentinos. Tema para uma coletânea de tangos. Joguete das pequenas tragédias do dia a dia. Um boneco manejado pelas mãos frias e habilidosas da desventura.
Cavinato, não chorou ao nascer pelo motivo usual: a invasão do ar em seus pulmões. Seu choro foi uma reclamação veemente contra o médico que o tirou do conforto de seu lar e ainda era um desajeitado que o segurava pendurado de ponta cabeça. Fato é que desde então, Cavinato tem a mais plena convicção que há um complô orquestrado contra ele em quase toda a empreitada na qual se mete.
Esta crença o tornou uma pessoa viciada. Mas não pense que o seu vício são as anfetaminas, ervas indígenas que nos fazem ver espíritos brotando do chão ou bebidas com teor alcoólico acima de 40%. Cavinato viciou-se em outra droga, só que aí, a palavra droga pode ser usada em seu duplo sentido. Ele é viciado em ligar para Serviços de Atendimento ao Cliente. Não passa dia sequer sem ligar para um SAC.
Suas ligações tornaram-se celebres entre os seus colegas, ja que hoje em dia, nas corporações modernas, a parede é um conceito praticamente extinto e você é obrigado a ouvir coisas da vida alheia das quais poderia ser poupado. Mas, as ligações do Cavinato são a exceção a esta regra. São uma atração. Como daquela vez em que tentou relatar um chiado na sua linha telefônica.
– Luiza Mota atendimento ao cliente em que posso ajudar?
– Eu estou com um problema na minha linha telefônica.
– Qual a natureza do problema?
– Um chiado. Não da pra ouvir nada que o outro fala.
– O senhor quer que eu fale mais alto então?
– Por que diabos a senhora falaria mais alto?
– Porque o senhor disse que tem um chiado na sua linha e que mal ouve o que se fala do outro lado dela, meu senhor.
– Dona Luiza, a esta hora da manhã, presume-se que eu esteja no trabalho, portanto a senhora não precisa gritar.
– Pois não eu vou estar passando para a nossa área técnica, o senhor, por favor, aguarde um minutinho?
– Ah, não…
– Como, senhor?
– A senhora está tentando me enganar usando o diminutivo de minuto, achando que isso terá efeitos tranquilizantes sobre mim.
– Não entendi, senhor.
– Por acaso o minutinho é um minuto de 40 segundos e por isso a senhora acrescenta este “inho”?
– Não, claro.
– Exato. Eu não sou suscetível a essa tentativa torpe de me enganar com o que eu chamo de “expressões tranquilizantes”. Um minuto é um minuto em qualquer ponto do planeta terra. Leva sessenta segundos até começar o outro minuto. Não tente me enganar acrescentando um “inho” na tentativa de me tranquilizar.
– Pois não, senhor, então eu estarei passando para a nossa área técnica que vai atendê-lo em um minutinho…
– Minha senhora eu acabei de falar… alô…alô…
Voz gravada dizendo o quanto a ligação do Cavinato é importante mesclada com uma música do Keny G em looping até o área técnica atender.
– Area técnica, Claudio Lins. Com quem eu falo?
– Claudio Lins, por favor, quantos segundos tem um minutinho?
– Como, senhor?
– Quantos segundos tem um minutinho?
– Acredito que sessenta senhor.
– O que é o mesmo que um minuto, certo? Um minutinho e um minuto têm sessenta segundos, correto?
– Ã…correto.
– Não, Cláudio Lins, errado. Um minutinho é uma unidade de tempo cujo conceito é bem elástico, porque a sua colega Luiza disse que até você atender ia levar um minutinho, numa tentativa clara de me enganar, passando a idéia de que talvez um minuto tivesse 40 segundos ou quem sabe até menos, coisa que, aliás, disse a ela que não existia. Mas eis que eu descubro que o minutinho de vocês leva 8 minutos e 37 segundos na unidade de tempo do mundo real, que vem a ser o meu, aqui do outro lado da linha.
– É que hoje estamos tendo muitas ligações…
– Eu não estou discutindo o número de ligações que vocês estão recebendo hoje e sim a medida da unidade de tempo que, me parece, é uma aí e outra aqui, inclunido o fato de existirem minutos que deviam levar 40 segundos ou menos e por isso são chamados de minutinhos, mas que na pratica levam mais de 8 minutos, o que pra nós aqui no mundo real levaria o nome de minutão.
– Certo, senhor, o senhor tem toda a razão.
– Ah…finalmente uma voz sensata. Muito obrigado então.
E desligou o telefone sem resolver o problema do chiado, contente que ficou por alguém ter dito que ele tinha razão.