Estava sentado na mesma pedra voltada para o lado oeste da ilha. No inicio, quando era um recém-chegado, aquele era um espetáculo deslumbrante. Um sol monstruoso dando adeus a mais um dia mergulhando lentamente na imensidão do mar a sua frente, colorindo o céu de vermelho, laranja e outras matizes de nome indefinível que eram possíveis ser vistas pela completa falta de poluição. Eram as “cores da ilha”, como resolveu apelidá-las. O astro despejava um rastro de luz que cintilava pela superfície da água, levemente crispada pela passagem das correntes marinhas. Com o passar dos dias aquele já não era senão uma visão comum e extremamente enfadonha.
Estava sentado na sua pedra por uma razão muito mais prosaica: rotina. Era a rotina que o aproximava das coisas que ele deixara na civilização desde que o avião caíra deixando-o como único sobrevivente que, depois de muito custo, tinha dado naquela ilha sabe lá Deus em que ponto do planeta. Sentia prazer de chegar lá na hora e sentar no momento em que o sol estava há um dedo de tocar a superfície do horizonte marinho. Esse era o horário estabelecido por ele para estar devidamente sentado la. Um dedo de distancia. Nunca chegava atrasado.
Depois de 237 dias de completa solidão naquela ilha uma pessoa que vive em uma cidade sofre transformações. As primeiras são obrigatórias e têm a ver com o instinto de sobrevivência. É preciso recorrer aos antepassados gravados em algum gene recôndido para acender fogo, pescar, caçar e se alimentar devidamente, bem como aprender que plantas têm algum poder curativo. É preciso aprender a lutar para sobreviver. É necessário entrar em processo de comunhão com a natureza. E quando você passa por este estágio, há um verdadeiro júbilo causado pelo senso de realização. Mas isso já era passado, tinha ficado bem lá para trás. Ele dominava a ilha, era o senhor daquele pedaço de terra abençoado por uma extensão de água de um tom de verde muito peculiar e um céu que se mantinha azul durante todo o dia, exceto por um breve período no meio da tarde que durava, segundo seus cálculos, aproximadamente uma hora (seu relógio quebrara no acidente), quando uma boa quantidade de água caía de maneira resoluta dos céus.
Mas depois do dia 206, segundo ele recorda dos riscos que ainda faz num coqueiro, passou a sofrer profundas mudanças de humor. Começou a se incomodar profundamente com toda aquela harmonia imposta pela natureza. Buscar coisas das quais sentia falta, como a rotina, era um sintoma. Sentado na sua pedra voltada para o oeste estava muito mais indiferente ao espetáculo à sua frente do que o costume. Retorcia-se numa clara crise de abstinência. Queria o cheiro de gasolina, de diesel. Ansiava por ver os gazes formando aquele manto marrom sobre os prédios cinza deformados pela excreção translúcida do combustível lançada por milhares de carros desesperados pela total incapacidade de chegar em algum lugar na hora planejada. Sentia uma saudade insuportável de chamar o filho da puta que o fechou no trânsito de, bem, filho da puta. De alcançá-lo e fechá-lo da mesma maneira. Necessitava da competição no trabalho, fazer de tudo para conquistar mais e mais para depois ter o prazer de olhar a expressão de inveja e derrota daqueles que superou. Queria uma pessdoa para a qual mentir, alguém para trair a confiança. Precisava ofender alguém só porque este alguém torce por um time diferente do dele. Ali, naquela ilha era o rei. Mas não tinha nenhum súdito para comandar. Ele era um ser humano, ora bolas. Completamente fora do seu habitat. Completamente desconfortável com toda aquela aborrecida harmonia do mundo.