O Braga é um sujeito muito bacana, mas sempre teve as suas peculiaridades. A principal delas é não ter amor nenhum pelos carros que dos quais foi dono. “Carro é uma máquina que tem que nos levar do ponto A para o ponto B, e, desde que esteja andando é o que interessa”, diz convicto. Com carro, o Braga só gasta o essencial, o que se resumia a abastecer (quantidade que nunca ultrapassava um quarto de tanque) e uma eventual troca de óleo quando o motor já desse sinais de queima do mesmo. Coisas bobas como trincos de porta e estofamento com manchas e outros cpontratempos não faziam parte dos “essenciais” do Braga. Não que ele não tivesse dinheiro para consertar esas coisas. Ele era simplesmente desleixado.
O Braga teve um casal de filhos, o Marcelo e a Carina. Tinham dois anos de diferença entre si, sendo o garoto mais velho. E foi ele quem mais sofreu com este desleixo obsessivo do Braga com os carros. Quando atingiu os dezoito anos idade, em que sair para festas e levar as candidatas a um relacionamento para jantar, ele pagou os pecados de algumas encarnações com a Brasilia creme que é o carro que o Braga liberava para as saídas – ele tinha um Corcel 2 e mais um fusca que esposa usava. Nessa idade, o ter um carro a disposição, sabe-se, é uma vantagem ainda mais em 1982. Mas a Brasilia creme que o Braga liberava para o filho conduzir as donzelas tinha la seus problemas, mas nenhum que superasse os trincos inoperantes das portas. Uma vez que você trancasse as portas, era impossível destrancá-las por for a, o que fazia o simples ato de entrar no carro um exercício. O único modo de destrancar as portas era destrancar o porta-malas, projetar meio corpo para dentro do carro pelo porta-mala e esticar o braço, alcançar o pino, levantando o mesmo, liberando o trinco e aí sim, destrancando a porta, tanto a do piloto quanto a do carona.
A sina de entrar pela porta do porta-mala para poder abrir as portas da Brasilia creme dificilmente abandonava a retina da menina que saia com ele. Era uma primeira impressão. Algumas não podiam evitar e começavam até a gargalhar subitamente no meio de um papo em uma festa ou no bar lembrando a imagem do Marcelo com o corpo projetado para dentro do porta malas debatendo-se para alcançar o pino da porta o que fazia os seus pés que ficavam pra fora do porta malas balançarem no ar tal qual a cauda de um peixe recém tirado dá água e, depois, o rosto rubro e a respiração ofegante pelo esforço, enquanto abria a porta para a moça em questão entrar.
Era um problema era simples de solucionar, não fosse um carro do Braga, e por isso, derrubou inúmeros prospectos de relacionamento do pobre e sofrido Marcelo. A irmã debochava dele, que ficava prostrado sempre que o namorado dela aparecida para pegá-la para sair com um carro cujas portas funcionavam perfeitamente. Ele implorou ao Braga pra dar um jeito naquela situação, que estava “queimando o meu filme” com ele costumava definir sua situação, não raramente com a voz embargada. O Braga, impassível, inventava desculpas das mais variadas: “Bobagem, isso é um ótimo quebra gelo” ou “Cadê a sua criatividade, moleque? Transforme um fato negativo em positivo e elas vão babar por você.” Ou, ainda, “Se a menina gosta mesmo de você não vai se importar com uma ciobinha a toa como esta.”
Cansado se ser humilhado pelos pinos desobedientes da Brasilia creme, Marcelo resolveu acabar de uma vez por todas com as situações vexatórias que era obrigado a passar. Na noite em que finalmente ia sair com Lúcia, a menina mais incrível da escola, resolveu usar uma tática simples: não trancaria as portas da Brasilia creme em momento algum. Daria um basta naquela cena burlesca da qual ele era o palhaço principal. Com a Lúcia não.
Funcionou perfeitamente quando foi pegá-la no apartamento. Funcionou perfeitamente quando saíram do bar e se dirigiram para a festa. Mas, quando saíram da festa, no espaço onde estava estacionada a Brasília, estava o Corcel 2 novinho do Lugato, ou melhor, do pai do Lugato, que, por sinal, andava de olho na Lucia também. Ladrões se aproveitaram das facilidades apresentadas e levaram a Brasilia creme. A Lúcia, quem levou foi Lugato, deixando, no caminho, o Marcelo na delegacia para fazer o boletim de ocorrência. Marcelo estava aborrecido por ter que passar por todos aqueles procedimentos àquela hora da noite, mas não chegava a estar infeliz. A Brasilia creme ia para o desmonte. O Braga ia ser obrigado a comprar um outro carro. Mas, depois de um tempo, lembrou que, como todo carro do Braga, a Brasilia creme não tinha seguro. Passou a sentir calafrios ao imaginar o que viria pela frente.