Ele era um excelente contador de histórias, do tempo em que as histórias que ele contava ainda eram chamadas de estórias. Quando começava a contá-las as pessoas ficavam hipnotizadas.
– Mas o cara saiu correndo de que, vovô?
– Isso eu não sei. Só sei que ele saiu correndo e rolou numa ribanceira e só foi parar de rolar no chão duro, preto e meio áspero.
Uma pausa dramática leva os netos a loucura.
– Então vovô.
– Era asfalto, minha filha, ele caiu no meio de uma estrada. Quando deu por si viu a luz de dois faróis em sua direção.
– E então vovô?- Todos falaram em uníssono – E então?
– Não sei. Mas como era a vítima do tombo que estava contando esta história para um amigo, julga-se que escapou ileso, pois não?
Os netos odiavam quando isso acontecia, ou seja, sempre, mas nunca conseguiam resistir quando ele começava a contar suas histórias. As vezes, algo no meio de um jantar era o suficiente para lembrá-lo de uma de suas histórias inacabadas. Fora os filhos, que se divertiam muito sabendo como elas não iam acabar, os outros convidados eram capturados pelo talento do seu Maurício na arte de contá-las.
– Milho me lembra a história de uma moça que morava no interior. Ela estava para casar com o seu namorado de anos. Uma eternidade tinha aquele namoro. Nos fundos da casa do pai tinha um enorme milharal e um dia ela resolveu se embrenhar por entre a tal plantação. Como as hastes com os milhos estavam altas ela se perdeu, acreditam? Se perdeu completamente. O dia estava nublado e sem a referência do sol, não sabia para que lado ir. A coitada ficou desesperada. De repente, do nada, surgiu um lindo rapaz, segundo ela disse. Alto, cabelos e faces brilhantes e uma vestimentas deveras esquisita. Ela tinha a mais absoluta certeza de que ele não era deste mundo.
Como de costume, recorria a sua pausa dramática. Pegou um milho e fitou-o como se aquele milho pudesse ser a testemunha da história que ele contava ali. Os convivas na mesa nem respiravam. Ele sabia captar a audiência.
– O rapaz pegou na mão dela e, sem falar nada a conduziu pelo milharal. Apesar dele ser um completo estranho ela simplesmente não conseguiu resistir aquela mão estendida. Por alguma razão que não conseguia explicar, confiava plenamente naquela figura alva. Ele a conduziu sem dizer uma palavra até a saída daquele labirinto verde e amarelo. Quando olhou a casa, sentiu um alivio imenso. Virou-se para agradecer e aí veio a surpresa…
Mais uma pausa, mas desta vez, a impaciência tomou conta da mesa.
– Que surpresa, seu Mauricio. O homem era de outro planeta mesmo?
– Não.
– Ele sumiu, era um espírito?
– Talvez.
– Como talvez, seu Moreira?
– Eu não sei, gente, juro que não sei. A tal moça e a amiga para quem ela contava a história desceram no décimo primeiro andar. Vida de ascensorista era assim, meus filhos. Muitas histórias ou sem pé, ou sem cabeça, ou sem nenhum dos dois. Nunca foi fácil. Nunca foi fácil. Delicia esse milho, hein?
One response to “Sem pé nem cabeça”
Nossa jurada, Aracy de Almeida: "goishtei…vou dá um milhão!"