O vórtice das vitrines.

Márcia e Cláudio saem do cinema com os créditos ainda fazendo o seu caminho vertical de baixo para cima. Seguem o fluxo de pessoas em direção à saída da sala. Não conversam, ao contrário de muitos outros que fazem seus comentários sobre o filme recém-findo em voz alta, já que a música ainda sai pelos potentes alto falantes estrategicamente distribuídos dentro da sala. Após alguns passos morosos eles alcançam a saída. Os olhos tendo que se acostumar à claridade acachapante das luzes alvas do shopping. Eles então seguem caminho pelos corredores.

– Então, gostou do filme? – Ele pergunta.
– Adorei. – Ela abre um sorriso – E você?
– Não foi o que eu esperava.
– Nossa, logo você que adora ficção científica.
– Deve ser por isso, quando a gente gosta do gênero, fica mais exigente.

Os dois continuam andando pelo corredor ainda sem destino definido. Andam no mesmo passo vagaroso das pessoas que estão ali pelo prazer de ver as lojas e pela temperatura amena proporcionada pelo ar condicionado. Lá fora, 34 graus.

– Eu estou com fome. – Ele, passando a mão no estômago.
– Muita?
– Você conhece o meu estômago. Aquelas pipocas não fizeram nem cócegas. E depois, eu estou louco para comer aquele sanduíche de pão francês com tiras de filé e cebola frita que eles fazem naquela lanchonete da praça de alimentação…

Cláudio percebe que as pessoas estão olhando para ele. Algumas claramente apiedadas, outras com um sorrisinho indisfarçável. Uma menininha passa, olhinhos arregalados na direção dele, agarrada às pernas da mãe, que a abraça enquanto se afasta dele a uma distância que julga segura. Todas aquelas reações eram sinais claros e inequívocos do que ele mais temia. Olhou para o lado e teve certeza. Ele estava falando do tal sanduíche para ninguém. Falava sozinho, com água na boca, do seu sanduíche favorito, pois sua amada Márcia havia sumido de uma hora para a outra. Havia sido sugada pelo vórtice da vitrine. Estancou no meio do corredor. Olhou para trás. Vitrine era o que não falta dentro de um shopping. O vórtice da vitrine, segundo Cláudio, é uma anomalia no espaço-tempo, uma singularidade, que afeta a maioria esmagadora das mulheres. Ele se forma ao passarmos por uma determinada vitrine, que suga suas vítimas para dentro de uma outra dimensão: o mundo da gastança. A princípio pensou que o fenômeno afetava apenas a Márcia, mas após cuidadosos estudos com amigos e parentes, chegou à conclusão de que este era um fenômeno tão corriqueiro quanto as massas de ar quente e frio que se chocam causando as chuvas.

O próximo passo é procurar por Márcia loja por loja, refazendo todo o caminho já percorrido. Num shopping, o trabalho fica ainda mais árduo por razões óbvias. Alguns se gabam de ter muitos quilômetros de vitrines. Mas, não é hora para esmorecer. Não há tempo a perder, pois neste momento, Márcia já deve estar sob o domínio dos seres que habitam a dimensão para a qual o vórtice da vitrine leva suas vítimas: as sereias atendentes. Insidiosas, elas atacam suas vítimas com elogios e paparicações com o único e pérfido objetivo de se obter seu alimento: a comissão. O tom hipnótico da voz se torna irresistível. Aquele par de brincos ficaria ainda mais lindo com a gargantilha. A gargantilha, por sua vez, combina perfeitamente com a blusa marrom, que fica divina com a calça jeans stone washed, que fica perfeita com a bota de bico fino e cano médio. Obviamente, a bota pede um cinto no estilo e cores pertinentes e, por último, a bolsa. Ele precisa achar Márcia rapidamente, antes que ela seja seduzida a levar um guarda-roupa ineiramente novo. E, dependendo da loja, pode estar até levando o guarda-roupa mesmo. O móvel. Cláudio olha desesperado, loja em loja. Invade provadores, procura por entre araras, assustando clientes. Cláudio é um homem desesperado. Finalmente, após vinte minutos de procura desenfreada, ele enxerga Márcia cercada por duas sereias atendentes. “Covardes”, pensa, “Atacando em bando”. Ele entra na loja como um cavaleiro andante pronto a salvar sua donzela. Só que, em vez da espada, ele saca o seu cartão de crédito. Cláudio sabe muito bem que ela não vai sair lá de dentro de mãos vazias. As sereias atendentes mudam o tom gentil e solícito para o desesperado assim que percebem a chegada Cláudio. Mas só ele percebe, porque só os homens percebem esse tipo de mudança. Ele finge não ver e toma todos os cuidados, pois está numa dimensão que não é a sua. Márcia percebe a sua presença, vira-se segurando a uma blusa abóbora na frente do corpo.

– O que você achou.

Estava feliz. Era ele quem dava as cartas. As sereias atendentes recuaram, conformadas com a mísera comissão que tinham conseguido até ali. Ele tinha pressa, muita pressa. Além de tirar ela do mundo da gastança, lembrou de sua fome. Aquele sanduíche parecia cada vez mais delicioso.


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