O menino ainda estava em formação. Não falo da formação física porque esta já se tinha concluído. Pulmões, rins, cérebro, coração, tudo em pleno funcionamento. O que ainda estava por ser difinido eram certas convicções do menino. Dentre as quais a mais sagrada: o time do coração. Como qualquer menino, ele teve os primeiros contatos com o futebol pela mão do pai. Mão que o levava todo final de semana ao estádio Olímpico. Os sons da torcida, o grito dos vendedores, o cheiro de cigarro recém-aceso e aquele azul-celeste desfilando pelo gramado deram ao menino a condição de gremista. Mas veja bem, meu amigo leitor, que uma coisa é ser gremista e outra é ser gremista convicto. E tal afirmação vale para qualquer preferência clubística. E não é fácil chegar à convicção. É um caminho doloroso, cheio de espinhos, solitário, triste e, por isso mesmo qualquer um pode fraquejar e se tornar o tipo mais abjeto de ser humano a habitar este planeta: o vira- casaca.
Pois o nosso menino acabou percorrendo o tal caminho em meados dos anos 70. Nessa época surgiu na cidade um bando formado por quatro sujeitos que pareciam ter como meta de vida fazer esse menino trocar a cor da sua paixão. Eram eles Figueroa, Falcão, Carpegiani e Lula. O primeiro, seguro e elegante até para dar uma cotovelada. O segundo, altivo como um rei, cargo que aliás ocupou mais tarde em outra cidade. O terceiro era rápido, incansável e inteligente. E o quarto driblava e ia à linha de fundo como se ninguém estivesse a marcá-lo. Quatro sereias a cantar todo final de semana no ouvido desse pobre menino: vira colorado, guri. Vira colorado, guri. E o menino lá, resistindo bravamente, mas longe de vencer a tentação.
Dia que tinha Grenal então era um suplício. Sempre pela mão do pai, lá ia ele para o estádio. Sentava nas cativas, pronto para torcer para o seu time. Mas lá no fundo ele também ia admirar o maravilhoso futebol dos quatro. Tentava não admitir para si, mas que admirava, admirava. Sabia que o Grêmio não teria a menor chance com aquele bando de craques jogando do outro lado. Seria tudo tão mais simples se ele fosse colorado. Imagina poder bater no peito e dizer: O Falcão, o Carpegiani, o Lula e o Figueroa são do meu time. Mas no que pensava em tal coisa a consciência aparecia e gritava no seu ouvido: Vira- casaca! Vira-casaca! É isso que você quer ser?
Outra prova a que esse menino tinha que passar era enfrentar as peladas no recreio do colégio. Todo colorado tinha uma vantagem incontestável. Cada um que pegasse a bola podia se imaginar um craque do seu time. Narrando em voz alta, era comum ouvir avoz deles, enquanto carregavam a bola, um “lá vai Lula”, ou um “que passe maravilhoso de Falcão!” e assim por diante. O pobre menino não tinha um ídolo no seu Grêmio que pudesse incorporar em seu imaginário enquanto estivesse com a bola de couro número cinco já sem tinta nos pés. Seria tão mais fácil se adotasse o vermelho. Poderia ser Lula, Falcão, Carpegiani ou Figueroa,quer dizer, este último com certa relutância, porque não gostava muito de jogar na zaga. Mas aí, a consciência apareceia mais uma vez e repetia no ouvido dele: Vira-casaca! Vira-casaca! É isso que você quer ser? Uma tortura. Uma dolorosa tortura.
Mas tudo mudou numa noite chuvosa do inverno porto-alegrense. O pai novamente pegou na mão do menino e o levou ao Beira Rio para assistirem a mais um Grenal. E lá foi ele para ver mais um show do quarteto fantástico. Havia três anos que o Grêmio não ganhava um mísero Grenal nem que fosse por laranjas. E não havia nada que projetasse uma jornada diferente naquela noite. O jogo começou e o Grêmio jogou como nunca. Naquela noite fria e chuvosa, os quatro ficaram pequenos na frente de um ponta-direita de cabelos altos estilo black power, parecia um dos Jackson Five. Um carioca que não tinha nada a ver com aquele clima gélido, polar. Era conhecido pela alcunha de Zequinha. Pois o endiabrado ponteiro fez três gols naquele Grenal e o Grêmio acabou vencendo por três a um. Um gol para cada ano sem vitória sobre aqueles vermelhos. O peito do menino inflou como nunca havia acontecido antes. Inflou de felicidade. Inflou de convicção. E no dia seguinte, na tradicional pelada da hora do recreio, na primeira vez que tocou na bola de couro número cinco já sem tinta, o menino, imitando narrador de rádio, falou em alto e bom som: bola com Zequinha.