Pais em TPM apresenta: confusão na firma.

Ernesto chegou no trabalho no horário de sempre. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. O jeito metódico estava encrustrado em algum de seus gens, herdado da mãe, que tudo organizava, tudo anotava e tudo planejava. Não tinha os exageros da velha senhora, mas mostrava certos traços, o suficiente para atrapalhar, vez por outra, a convivência com a sua esposa, Celina. Ernesto entrou em sua sala cumprimentando Dona Olga, sua secretária, com a firmeza e a mesma frase de todos os dias “Bom dia, dona Olga, como estamos hoje?” Quando sentou-se em sua mesa e ligou o seu computador, percebeu algo errado. Não conseguia estabelecer a razão daquela pequena incomodação, daquele desconforto, até que percebeu que os jornais não estavam sobre a mesa como é usual. Fato que o fez lembrar que ao passar poor dona Olga e feito a pergunta de praxe não ouviu resposta alguma. E como estava com a audição em ordem, como bem disse o úktimo check up, então a expressão certa não seria não ouviu e sim a dona Olga não respondeu. O que era muito estranho. Julgando o mundo a sua volta pela sua ótica oredeira, alguma coisa estava errada. Levantou-se e foi até a dona Olga. Percebeu um olhar de desaprovação vindo dela. Não uma desaprovação total, mas desaprovação, por certo.

– A senhora está bem dona Olga?
– Em pefeito estado de juizo, seu Ernesto. Coisa que falta a uns e outros neste escritório.
– A senhora está se referindo a quem, dona Olga?
– Tome aqui os seus jornais – falou ela estendendo-lhe os jornal. – Estou só com uma indisposição.

Aquilo era muito esquisito. Ela estava se referindo a ele quando dizia “certas pessoas”? é claro que estava. Quando um interlocutor fala a expressão “certas pessoas” com aquele tom pejorativo certamente está se referindo àquele com o qual está conversando. Enquanto ruminava o que poderia ele ter feito à dona Olga, se esquecido do aniversário? Uma promessa de aumento não cumprida?

Ao voltar de suas divagações percebeu alguns olhartes acompanhando a seus passos até o bebedouro. Havia olhares de reprovação como os de dona Olga e outros acompanhados por um sorriso sorrateiro e cúmplice. Estaria ele imaginando tudo aquilo? Sentiu o coração disparar. Havia muita coisa fora do lugar para o seu gosto organizado. Quando estava chegando ao bebedouro percebeu dois estagiários que conversavam e teve a nítida impressão de ouvir claramente um “é ele, não é?”. Constranfeito e descioncertado, passou pelo bebedouro e alcançou a cozinha que, felizmente, estava deserta. Jogou os jornais sobre a mesa e procurou a térmica. Sentiu que precisava de um café quente, mesmo que fosse o café meio sem gosto da dona Rúbia. Ele nunca javia entrado naquela minúscula cozinha e notou a bagunça, para os seus parâmetros, que era aquele lugar. Pegou um copo plástico, despejou o café fumegante até a metade, acresceuntou uma colherinha de açucar e sorveu o oprimeiro gole. O líquido quente pareceu abrandar um pouco a sua ansiedade. Estava tentando se colocar nos trilhos e se perguntando se aquilo não era apenas uma ilusão da sua parte. Subitamente a figura lânguida, esguia e sensual entra cozinha adentro.

– Bom dia, Ernesto? Que surpresa encontrar você nesta cozinha – ela era toda sorrisos.
– Bom dia, Clarice.
– Como foi seu final de semana?
– Normal.
– Olha – ela baixou a voz e se aproximou dele a ponto dele sentir o cheiro do shampoo caro que ela usa – se você quiser passar outro destes seus finais de semana normais, me avisa, tá?

Ela saiu da cozinha como se estivesse mostrando um vestida da nova coleção Dolce & Gabana na passarela, deixando-o completamente desconcertado e certo de que algo estranhíssimo estava ocorrendo. Aqueles olhares, aquele comportamento de dona Olga não eram truques da sua imaginação. Por que diabos estava sendo o foco de atenção dos colegas? Sim, ele ja não tinha mais dúvida. Era alvo de comentários. E aquela cozinha ja devia ter ouvido poucas e boas sobre ele. “Esse lugar é praticamente o estúdio de onde é transmitia a rádio corredor”. Olhou para a geladeira, o fogão, a violeta da janela como se pedisse para contarem alguma coisa que tivessem testemunhado. O cheiro do shampoo da Clarice impregnando suas vias nasais. A cantada da Clarice ainda viajando pela sua mente. Tinha vontade de ficar ali naquela cozinha e não sair mais, mas a dona Rúbia chegou e começou a lavar as xícaras e pires que povoavam a pia.

– Ué, doutor Ernesto. O que o senhor ta fazendo aqui?

Teve vontade de beijar a dona Rúbia. Era a única que permanecia a mesma, a dona Rúbia do seu mundo organizado e ordeiro, longe da bagunça que se encontrava agora. Precisava criar coragem e sair da cozinha. Afinal, havia trabalho a fazer. Passou por todos novamente e os olhares disfarçados, mas nem tanto, o acompanhavam de todos os lados. Ele precisava encontrar o Jarbas. Era mais que um colega, era alguém com que podia contar e que colocaria ordem no seu mundo. Passou por dona Olga que coninuava emburrada. Foi até a sala do Jarbas e cruzou com dona Juliana sem nem perceber que ela o olhava como se ele fosse um idolo. Irrompeu a sala do colega e quase aos prantos suplicou.

– Jatbas, pelo amor de Deus, diz que eu não sou louco. A empresa inteira, tirando a dona Rúbia, está me tratando como se eu tivesse feito alguma sandice.
– E você não sabe? Nem desconfia? – O Jarbas mostra aquele mesmo sorriso sorrateiro de alguns.
– Você também quer me enlouquecer, Jarbas? É claro que eu não faço a menor idéia. O que é estranho é que metade da empresa me olha como criminoso e a outra metade como um herói. Até cantada da Clarice eu levei.
– A gostosa da Clarice? – Impressiona-se o Jarbas. – Meu Deus, Ernesto, depois de tanto tempo, você resolve mudar e virar um predador.
– Jarbas, PELO AMOR DE DEUS! Eu nao sei o que está acontecendo.
– Não se faz de desentendido. Você foi flagrado e o flagra foi documentado.

Jarbas vira o computador que mostra vearias fotos do Ernesto com uma menina linda. Fotos que mostram os dois em inúmeras demonstrações de afeto. Carinhos, mãos dadas, abraços.

– Jarbas, você e essa maravilha. Num shopping. Que gatinha é essa, meu Deu?
– Quem tirou essas fotos?
– O Romano, estagiário. Mas antes que vocé se irrite com o rapaz, confesso que até eu, no lugar dele, fotografaria e espalharia a foto pra empresa inteira. Garanhão! Essa mulher é uma…uma
– Uma o que Jarbas?
– Uma gostosa. Olha isso, meu Deus, que coisinha Ernesto. Como é o nome dela.

Ernesto se jogou sobre o Jarbas com uma fúria descontroada. Cairam sobre a mesa e depois no chão. Ernesto pegou o Jarbas pelo colarinho e chacoalhava o colega que batia com a cabeça no chão. Com os dentes cerrados, porém gritando sempre a mesma coisa.

– Essa é a Joyce. A Jouyce que você viu nascer, seu pedófilo potencial.

Demorou pra separarem os dois. A Joyce, que o Jarbas viu nascer mas que foi estudar na Europa fazia dois anos e apareceu de surpresa no final de semana. A Joyce que estava linda e apenas com 16 anos. Que estava no shopping com o pai no momento em que as fotos foram tiradas por aquele maldito estagiário fofoqueiro.


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