O exterminador de discussões.

Quanto entrava na discussão, era acachapante, definitivo. Tinha um argumento tão inatacável que a discussão perdia o sentido. Não importava o assunto, a discórdia, ele era o ponto final, a tecla “mute”. Sua visão neutra, gélida e coberta da mais racional das razões desestruturava qualquer embate. Tirava-lhe o sustento. Implodia-o impiedosamente. Um: “Foi pênalti”. Outro: “Bola na mão, bola na mão”. Um: “Penalidade mais do que máxima, meu amigo. Teu time vive recebendo mãozinha dos de preto.” Ele: “A bomba já explodiu, de que adianta continuar discutindo se o fio que devia ser cortado é o branco ou o verde?”. Silêncio. Sepulcral. Inconteste. Entre cada sílaba daquela frase completamente coberta de sabedoria ecoava a completa inutilidade daquela discordância. Um: “Como pode votar nele? É um inepto. Quando estava no Ministério da Educação, o investimento em ensino básico caiu drasticamente”. Outro: “E quando foi que ocorreram aqueles dois apagões? Quando o teu candidato era Ministro das Minas e Energia”. Um: “E o filho do teu candidato, que de desempregado virou milionário prestando serviços para o Ministério da Educação?”. Outro: “Filho? E o teu candidato que empregou filho, nora, genro, mulher e o escambau na época em que era Deputado Federal? “. Ele: “Ótimo. Vocês me deram razões para não votar em nenhum deles. Vou de terceira via.” Novamente, o silêncio insuportável. O silêncio de quem cai em si. De quem constata a sua própria estupidez. Ele sempre foi assim, ouvia dezenas de colocações, de justificativas apaixonadas, envolvendo qualquer assunto. O casamento, o trabalho, o trânsito, tudo. Quando abria a boca era definitivo. Era uma única frase. Certeira. Mortal. Um atirador de elite. Um matador frio. Era abrir a boca para termos uma cizânia morta. Desfalecia ante a constatação de sua estrondosa inutilidade. Mas seu tirocínio tornou-se um fardo. Uma maldição a persegui-lo. Implacável. Afinal, quem, em sã consciência, deseja ficar perto de uma pessoa dessas? Quem, em em seu juízo perfeito, deseja ter por perto alguém que espelha o nosso lado mais débil? Ninguém. Alma viva. E depois, uma discussãozinha é sempre muito bem vinda. Que o digam as mesas redondas. Essa maldita inteligência, essa perspicácia corrosiva foi, com o tempo, se virando contra ele. Se tinha um bolinho, este se desfazia quando ele chegava. Ninguém o queria por perto. Hoje, vaga solitário, acompanhado apenas da sua razão indómita. Ainda bem que gosta de cachorros.


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