Sou um assassino. Um assassino obstinado. Um serial killer da mesma pessoa. Já a matei de várias formas. Mas nenhuma foi cruel o bastante para aplacar a minha ira inconsolável. É sempre igual. Assim que o mato, comprazo-me, extasio-me. Mas no que volto a mim, lá está ele novamente. O maldito bípede de cabelos compridos continua vagando por esse planeta, incólume. Não sofreu o bastante, então preciso de uma forma ainda mais dolorosa de tirar-lhe a existência.
A primeira vez que o matei foi muito simples, singelo até. Nada elaborado. Foi pura reacção. Simplesmente parei na frente dele e descarreguei uma pistola. O pirralho caiu imediatamente, estendido no chão com vários pontos por onde o sangue jorrava. Não durou muito. Não adiantou nada. Não era assim que eu queria. Precisava demorar mais. No outro dia eu apareci com uma faca e o esfaqueei repetidas vezes, um crime muito mais visceral, demorado, doloroso. Esfaqueei-o tal um Caim obstinado. Não contei quantas foram as estocadas. Gostei mais, pois ouvi gritos e gemidos vindos daquele boca. A mesma de onde saíram as palavras que causaram todos os problemas.
No outro dia parecia que nada havia acontecido. E não havia mesmo. Ele obviamente estava vivo, desfrutando de saúde e provavelmente jogando seu charme em alguma incauta. Decidi aumentar o nível de crueldade. Sequestrei-o, levei para um lugar ermo e o enfiei em uma pilha de pneus usados. Joguei gasolina, peguei um isqueiro Zipo. Acendia e apagava, acendia e apagava, enquanto encarava o moleque desfrutando cada segundo. Seus olhos arregalados eram uma imagem doce para mim. Seus gritos desesperados eram a mais afinada das sinfonias, trilha sonora perfeita para a minha vingança, quero dizer, a nossa. Suas explicações entre lágrimas e soluços cheios de pavor me faziam dançar. Depois de alguns minutos joguei o isqueiro e o fiquei observando-o queimar. Urros e o crepitar do fogo. Nem bem passaram dez minutos e eu obviamente voltei a realidade. Nela sabia que ele estava e contente, talvez ouvindo música alta em seu quarto incomodando os próprios pais.
Teve a vez em que eu o sequestrei novamente, levei-o para um depósito abandonado e o amarrei numa cama. Dava-lhe apenas um copo de água por dia. Ficava observando-o definhar dia a dia, aquele moleque insolente e cruel. Pensei no quanto estavam sofrendo os seus pais. Talvez sofriam como eu estava sofrendo. Um sofrimento lancinante e agudo. Uma sensação de impotência tão completa, tão pesada, tão escura que faz justamente me tornou nesse assassino frio. Lá pelo sexto dia de cativeiro tudo mudou. Radicalmente. No café da manhã eu olhei a minha filhinha, carregando um sorriso sincero no rosto.
– Bom dia filhinha.
– Oi, pai.
– Que sorriso lindo. Há quanto tempo não via esse sorrido.
– Meu coração está aliviado, pai. Bem que você me disse “o tempo vai curar essa dor”.
– Esqueceu aquele moleque?
– Acredita? Assim, simplesmente. Sumiu. É a melhor sensação do mundo. Bem que o senhor me falou.
Ela levantou, beijou gostosamente a minha face e foi para a escola. Eu fiquei olhando para ela, leve, normal de novo. Longe daquela alma penada andando pela casa carregando o sofrimento da rejeição nos ombros pela primeira vez na vida. Fazendo-me sofrer ainda mais do que sofri com as minhas próprias desilusões quanto tinha a idade dela. A única coisa que eu podia fazer por ela não parecia o bastante: estar sempre perto, abraçá-la, repetir o óbvio sobre o tempo curar a dor. Por mim eu nada podia fazer, a não ser matar a causa desse sofrimento tantas vezes quanto eu podia em minha imaginação. Mas agora, isso já não importa mais. Libertei o moleque da minha tortura imaginária. Ele passa bem. Mas ai do moleque que fizer isso conosco novamente.