“Veja, meu caro Juliano, não admira você estar aí feito um dois de paus encarando-me admirado por não entender a minha atitude. É, basicamente, por isso que eu sou diretor desta prestigiada instituição de ensino e o senhor é apenas o bedéu. Por outro lado, seu espanto é que, de alguma forma, me espanta, porque, afinal de contas, o senhor é uma figura de autoridade e como tal deveria entender as pequenas sutilezas a que um homem em cargo de comando deve lidar diariamente. Eu não tenho preferência nem por Milena e nem por Isabela. Eu sei que o senhor está com essa caraminhola na sua cabeça porque o mundo das duas é completamente diferente, já que, por exemplo, uma pinta as unhas caprichosamente. Todas as unhas da mão da mesmo cor. Uma uniformidade cromática que denota equilíbrio e sistema. A outra tem uma unha da cada cor. Um caso cromárico. Um arco-iris na ponta dos dedos. Diferente, sem dúvida. É incrível como a maneira de uma mulher pintar as suas unhas diz muito sobre ela, não é verdade? Uma certinha, a outra, louquinha, um tanto, como direi, esquisita? Esquisito é uma boa palavra. Eu não nego que senti um certo, digamos, júbilo, o senhor sabe o que significa júbilo, Juliano? Pelo balançar da cabeça vejo que sabe. Pois muito bem, eu senti um certo júbilo ao ver as duas sentadas lado a lado na ante sala do meu gabinete. Aquelas duas vivem em mundos diferentes, nunca sentariam lado a lado em lugar algum. Mas o que não faz o infortúnio, não é mesmo, Juliano? O infortúnio junta pessoas injuntáveis. Homogeniza os heterogênios. Mas vejamos, onde eu estava? A, as duas lado a lado na ante-sala porque cometeram o mesmo deslize. Chegaram atrasadas, desconsiderando até mesmo a nossa tolerância de dez minutos. Eu sou uma pessoa razoável, não sou Juliano? Queria ouvir o que elas tinham a dizer, afinal, sabe-se lá que acidentes inomináveis poderiam ter acontecido para provocar os tais atrasos. E aí voltamos ao início da nossa conversa. O senhor não compreende porque depois de me contar aquela história esapafúrdia do cano que estourou no banheiro e a quase inundação que o vazamento provocou, fazendo, como ela disse?, “agua cair escada abaixo como as cataratas do Niágara.” Não é uma beleza enquanto metáfora pobre? Onde estava?Ah, sim, o senhor não compreende porque depois de me contar esta mentira tão descarada eu liberei Milena para assistir a aula, enquanto Isabela, que simplesmente olhou nos meus olhos e disse “dormi demais” foi para a detenção esperar o segundo período. Ora, Ora, Juliano. Eu não premiei a mentira em detrimento da verdade como eu supõe essa sua expressão espantada no rosto. Não sou insensível a esse ponto. Eu premiei o respeito e castiguei o escárnio e o sentimento de superioridade em relação a uma autoridade. Aquela mentira deslavada, ou se quiser, lavada em água do cano que na verdade não vazou é uma forma de respeito a mim. Demonstra que ela me vê como alguém capaz de manejar o seu destino aqui dentro desta instituição. Ja a outra, Isabela, tomou apenas sete segundos para atirar na minha cara a verdade. Isso demonstra o que, meu caro Juliano? Demonstra que a outra simplesmente não me vê como alguém que pode influir em sua vida. É um atrevimento jogar assim a verdade na cara de uma autoridade, mesmo com aquele jeitinho meio maluquinho. Não se fala uma verdade desse calibre, numa situação dessas para alguém numa pisção superior. Isso é uma ofensa, uma total falta de respeito. A punição é uma consequência lógica para este ato. Não é simples, Juliano? Cristalino como água a mesma água…isso do cano que não vazou. O senhor aprendeu, não aprendeu? Agora pode ir e leve esta valiosa lição com o senhor.”