O desenhista

João Clemente desenhava desde pequeno. Ele não lembra de alguma vez em sua vida que não estivesse com um lapis na mão colocando no papel o seu testemunho em traço firmes das coisas que o cercavam. Seu impressionante sentido de perspectiva e dimensões nasceu com ele. Aos 14 anos, resolveu que o talento nato pedia um pouco de técnica. Entrou para uma escola. Ganhou solidez, nobreza e recursos que o tornaram um verdadeiro artista. Quando fez 16 anos, João resolveu ganhar um dinheiro com a sua arte. Não queria ser como os seus amigos que fganhavam mensada. Foi para uma praça no centro da cidade com um caderno de desenho, um tripé, seus lápis e um banquinho. Se ajeitou em uma área onde a circulação de pessoas era intensa. Colocou la a sua plaquinha. “Caricaturas em 3 minutos R$ 5,00. Retratos R$ 15,00.

Foi um período muito rico para João Clemente. Ganhou algo que nenhum curso de técnica poderia dar: conhecimento profundo do comportamento humano. Aprendeu enxergar a alma, que mesmo invisível, molda o mundo materia e a reagir de acordo com o que vial. Aprendeu a ser cinico com pessoas que pediam caricaturas e depois as rasgavam tomadas pela ira porque “isso aqui não sou eu”.

Aprendeu a compaixão ao perceber, no olhar fixo das pessoas que pediam seus retratos, o pavor do que aquele espelho no papel poderia revelar. Com o tempo soube perceber como exaltar o que elas tinham de melhor, ou, se não tivessem, podia inventar algo para que elas saissem felizes com a sua versão em crayon no papel.

Aprendeu a ler os olhos das pessoas e perceber que as criancas tinham um olhar igual ao papel branco a sua frente, puro e totalmente aberto para receber o que a vida resolvesse desenhar neles.

Aprendeu a custo de sua própria consciência que não exitem atos incionsequentes.

Era um dia como qualquer outro. João estava na mesma praça com seu caderno, seu tripé e o seus lápis. Ja anoitecia e ele pensava em ir embora quando dois policiais apareceram na sua frente. Eles escoltavam uma mulher, pequena, loira com os olhos borrados de sombra desfeita pelas lágrimas que ainda caiam. Ela tremia e soluçava.

– Você desenha rostos, não é? – Perguntou o policial mais velho. – Eu vejo você por aqui. Você é bom nisso.
– Obrigado.
– É o seguinte, essa mulher acabou de ser assaltada. Eu quero que você faça um retrato falado do assaltante.
– Eu não sei fazer retrato falado.Eu faço retratos e caricaturas das pessoas que estão na minha frante.
– Meu filho, você vai ter que se esforçar. Isso pode ajudar a gente a pegar o cara ainda hoje.

João relutou, mas acabou concordando com o policial. Sabia que era um despropósito, mas de que adiantaria argumentar mais? Ele pegou um papel, o lápis e a mulher foi descrevendo o sujeito. Ele foi seguindo aquelas as instruções truncadas por os soluços e fungadas. Lembrou-se das aulas de proporção e foi fazendo o que lhe desse na telha. Ele sabia muito bem que aquele não era o rosto do criminoso, mas também, não era o rosto de ninguém. Aquilo não ia dar em nada. Ao terminar, entregou a ela o desenho e ela apontou firme para o rosto no papel “Sim, é ele, é ele!”. Claro que não era, pensou João Clmente. Aquele era um rosto que não existia. Mas a mulher naquele estado confirmaria qualquer rosto que ele fizesse. O que ele queria mesmo era se livrar daquila missão o mais rapido possível.

Minutos depois, ele ouve gritos. É ela, a loira do olho borrado novamente. Os policiais trazem com eles um homem algemado que jura inocência. João Clemente corre para ver de perto. Olha bem para o rosto. Seu coração dispara. É incrivelmente parecido com o desenho que ele tinha feito a alguns minutos atrás.

– Parabéns desenhista – diz o policial.
– Obrigado, moço – repete a loira.

João simplesmente não conseguiu dizer que o rosto que ele fez foi completamente cirado do nada. Ele olhava para a vítima na esperança dela cair em si e dizer que aquele não era o ladrão, Mas em sua confusão mental, a pobre e perturbada mulher afirmava ser aquele o assaltante e ainda apontava para o retratpo falado, que agora estava na mãos dela como se fosse prova insofismável.

João foi para casa naquele dia sem saber o que fazer. Mal tocou na comida e foi se trancar no quarto mas mesmo assim não conseguia se livrar da sensação de estar sendo vigiado por alguém superior com cara de poucos amigos. Resolveu acabar com aquile sentimento. Tirar o peso insuportável. Saiu em direção a delegacia para onde foi levado o inocente e ao chegar la viu o policial com cara consternada.

– Olha, o desenhista.
– Onde está o homem que vocês prenderam?
– O assaltante? Morreu.
– O que? Como assim, morreu?
– Você sabe como é. Ficou numa cela com outros presos esperando os procedimentos. Deve ter se metido am alguma treta com outro detento. Mataram. Essa gente se merece.

João aina não pegou num lápis. Ja faz cinco anos.


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