Cada vez que ia a um lugar público com Vera, tremia com a possibilidade de encontrar uma das três Marias por acaso. Elas seguiam me indicando para festas, mas as idas ao “nosso apartamento” para sessões de sexo estavam se tornando mais escassas, com excessão de Maria Amélia. Ela realmente não havia percebido nada de diferente no meu comportamento. E continuava se divertindo. Eu procurava ir com Vera a lugares onde a possibilidade de encontrá-las se aproximasse do zero por cento. Sempre escolhia uma mesa em que eu pudesse ficar de frente para a porta de entrada para ver quem entrava. Prestava atenção nos carros no estacionamento. Meu comportamenteo não passava desapercebido por Vera. Era evidente, por algumas mudanças en seu semblante, que ela percebia o meu comportamento um tanto suspeito, mas, mesmo assim, nunca havia me confrontado. No máximo um “tudo bem?”e mais nada. Até que um dia tudo parecia ter desandadeo de vez. Estavamos em um restaurante quando noto Maria Amélia entrando pela porta. Pôs os olhos em mim assim que passou da porta. Lançou-me o seu típico sorriso de criança. Meio disfarçado, pois estava com o marido e os filhos. Uma estalactite entrou pelo meu estômago. Naquele momento, Vera segurava a minha mão demonstrando todo o carinho do mundo. Eu fiquei lívido. Uma estalactite de gelo imaginária penetrou meu estômago. Sabia que Maria Amélia não viria falar com a gente, já que estava com toda a família. Passou direto por nós e foi sentar-se em uma outra mesa, longe da minha vista.
Desta vez nnao houve como Vera não me interpelar. Se uma mulher inteligente percebe uma mínima mudança molecular no comportamente de um homem, imagine uma surpresa daquelas estampada na minha cara como um luminoso de motel.
– Você está bem?
– Como assim?
– Você não está bem – ela fica séria. – Quando homens querem sair pela tangente sempre dizem isso.
Já tinha ouvido aquilo recentemente. Maria Clara veio a minha mente na hora.
– Eu não sei o que é – faço voz de doente. – Acho que é o camarão. Tem vezes que não cai bem.
– Quer ir para casa?
– Se você não se importa.
Quando saí do restaurante o ar puro invadiu meus pulmões com a força da cavalaria salvadora. Estava, em parte, aliviado. Mas seria lógico pensar que Maria Amélia iria comentar a cena de amor entre mim e uma chinesa muito bonita na mesa do restaurante. Estava me sentindo muito mal pelo fato de elas saberem da minha relação com Vera daquele jeito. Fui arrancado de meus pensamentos por um beijo doce, quente no meu rosto. Vera e seu carinho oriental. Olhei para ela e as minhas preocupações se esvaneceram. Ela era perfeita. Uma chinesa da ponta dos pés ao último fio de cabelo. Mas fora os traços, era tão brasileira quanto o seu primeiro nome. Nada de paciência oriental, nada de provérbios milenares para me dar alguma lição. E mais um item de atração: dirigia como um homem. Muito melhor do que eu. E olhando para aquela mulher dirigindo furiosamente pensei que seria um verdadeiro ato de amor contar tudo para ela. Tinha que reunir coragem e cuspir aquilo de uma vez. A coragem que não tive com as três Marias eu devia a ela. Eu precisava fazer isso o quanto antes.
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Passaram-se mais de duas semanas daquele encontro fotuito no restaurante e nada demais havia acontecido. Eu via Vera praticametne todos os dias. As festas continuavam a aparecer na minha agenda. A única diferença é que eu não havia recebido nenhuma ligação de qualquer uma das três Marias. Aquele silêncio me deixava tenso. Pensei em ligar para Maria Clara algumas vezes. Eu a tinha como ponto de referência. Tudo havia começado por ela. Até porque, como já disse, tinha Maria Clara como a mais carente dentre as três, apesar de sua casca de mulher decidida. Na verdade, eu tinha mais medo dela do que as ameaças do Xuxu e o seu mentor, o palhaço Xexé.
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Estava em casa treinando novos truques para as festas e pensando seriamente em falar com as três para desfazermos o nosso trato quando o telefone tocou. Era Maria Alice.
– Oi, Alê.
– Maria Alice – meu coração disparou – por onde vocês andavam?
– As outras eu não sei. Eu estava viajando.
– Onde você está?
– No nosso apartamento.
– Fazendo o que?
– Esperando você – era possível sentir o aroma de dry martinoi saindio pelo poros do telefone. – Pega o Peraltinha e vem.
Pensei em dizer não. Mas vi ali uma oportunidade para conversar com ela sobre tudo. Ligaria de lá e chamaria as outras duas. Estava decidido. Seria assim, embora Maria Amélia tivesse me visto no restaurante com Vera, eu tinha mais a contar, a história inteira. Todas elas mereciam o meu respeito. Elas mudaram minha vida. O mínimo que eu poderia fazer era ir até lá e contar sobre Vera olhando nos olhos de cada uma delas. Antes de sair vi a caixa do Peraltinha. Não teria sentido levá-lo. Mas pensei bem e achei que seria um bom presente de despedida para Maria Alice. La fomos os dois para a garçoniere. Pela última vez.
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Quando cheguei ao apartamento a porta estava entreaberta, como na primeira vez que entrei lá. Empurrei e não a vi ninguém lá dentro. Dei dois passos e o mundo escureceu. Quando voltei a mim estava sentado no sofá com as mãos atadas, usando minha fantasia de palhaço. Maria Alice estava em pé na minha frente apontando uma pistola em direção a minha testa numa mão, enquanto segurava uma taça de dry martini com a outra. Peraltinha jazia desajeitado sobre o sofá, com um furo de bala na no meio dos olhos. Ela tinha o rosto transfigurado.
– Minha cabeca está doendo – tentei permanecer calmo. – Com o que você me bateu?
– É só eu apertar o gatilho que passa, seu filho da puta.
O bafo de vários dry matinis ja consumidos saiam pela boca junto com os impropérios mal articulados também pelo efeito da bebida.
– Talvez você não acredite, Maria Alice, mas eu vim aqui no intuito de contar tudo.
– Depois que a Maria Amélia nos contou? Muito fácil.
– Onde estão as duas?
– Sei lá – balbucia.
– Elas sabem que você está aqui me apontando isso?
– Elas não viram nada de mal em você estar dando atenção para outra. Compreendem perfeitamente. Queriam até fazer almoço de despedida. Muito compreensivas, as idiotas.
– Desculpe a sinceridade, Maria Alice, mas se você puxar esse gatilho, a idiota vai ser você. Eu vou desta para melhor e você para a cadeia.
– Eu amava o Peraltinha e você, seu palhaço.
– É o que eu sou.
– Você não é mais meu e nem vai ser de mais ninguém. Vou enterrar você e esse boneco na mesma vala.
E cá estou eu. Vestido e maquiado de palhaço por Maria Alice quando estava inconsciente. Olho fixo para o reflexo do meu nariz vermelho no cano prateado da pistola. Estamos em silêncio. Meu coração apertado, batendo como nunca, talvez querendo pulsar tudo o que pode antes de parar. Ela arfando e liberando seu hálido de dry martini na minha frente, a arma apontada firmemente na minha testa. Olho para o lado e vejo Peraltinha caído desajeitadamente no sofá com aquele buraco na testa e um sorriso idiota na face. Estou esperando ela decidir quando parto desta vida quando, subitamente, dois sujeittos invadem a sala bruscamente. Um brutamontes com um revólver na mão e um outro mais magro com um boneco na mão. Maria Alice vira a cabeca na direção deles.
– O que é isso? – Assusta-se. – Quem são vocês?
– Eu é que pergunto – Xuxu responte. – Quem é você, sua vaca?
– Sou a dona do apartamento que vocês estão invadindo.
Ela desvia a arma de minha cabeca e aponta para eles. Muscles, em resposta, aponta a sua arma para ela.
– Saiam já daqui! – As palavras dela saem pastosas.
– Não sem antes acertar contas com esse palhaço no sofá, sua puta.
– Calma, Xuxu – interrompe Xexé no seu tom sibilante. – Parece que a dama vai fazer o serviço para a gente. O seu coleguinha já levou um teco bem no meio dos olhos.
– Dama nada – responde Xuxu. – Uma puta. Puta e gostosa. Puta, gostosa e metida. Eu é que devia mandar o Peraltinha dessa para melhor, caralho!
Se eu não estivesse duplamente ameaçado de morte, acharia essa cena hilária. O Xuxu é mesmo um pentelho. Aliás, pude perceber que isso tinha causado certa impressão em Maria Alice.
– E por que vocês querem acertar contas com ele?
– Minha senhora…
– Puta, puta e gostosa! – Xuxu interrompe Xexé.
– Chega, Xuxu! – Xexé perde a calma pela primeira vez. – Este palhaço está intrometendo-se em nosso pequeno círculo de animação infantil e nos tirando um mercado promissor.
– Em resumo, sua gostosa, ele tá fodendo com a gente – Xuxu não se contém.
– Nós avisamos a ele para sair por bem. Ele não escutou. Então, passamos a segui-lo e decidimos que hoje seria o dia.
– Pow, bem no meio dos cornos dele – se não fosse pelo fato de ser um boneco, eu poderia jurar que tinha baba escorrendo da boca do Xuxu – Sua puta gostosa.
A medida em que o boneco fala mais e mais obsenidades, Maria Alice vai se entregando ao tesão. Ela deixa a pistola cair no chão e lança o corpo contra o de Xexé, dá-lhe um beijo cheio de lascívia enquanto acaricia o boneco. Muscles olha a cena atônico. E eu louco para rir. Um boneco e seu dono. E um boneco boca suja. Era tudo o que Maria Alice queria. Ela parece ter conseguido o seu menage a trois de novo, já que Xexé e Xuxu respontem aos beijos e carícias com intensidade.
– Vem comigo pra cama. Você e esse boneco deliciosamente pervertido.
– E ele? – Pergunta Xexé, apontando pra mim.
– Ele não vai ser mais problema. Você vai ter uma nova empresária. E ele vai sumir do mercado.
Os três vão para cama e me deixam com o Muscles na sala. Eu vejo os olhos de Muscles que estão postos no falecido Peraltinha. Uma lágrima escorre pelo rosto daquele brutamontes. Peço para ele me soltar. Ele obedece enquanto soluça, triste por ver Peraltinha morto. Levanto. Vou até o banheiro e tiro a maquiagem e a roupa de palhaço. Saio e despeço-me do enorme sujeito que agora segura Peraltinha no colo, desconçolado. Estou louco pra encontrar Vera. O elevador chega. Entro. Vou passar em casa antes e tomar um banho. Suei muito embaixo do braço quando estava sob ameaça daquela pistola. Suor nervoso. E fede um bocado.