E o palhaço om que é? – Parte 9

Os dias

O reflexo distorcido do meu nariz vermelho de palhaço no cano prateado daquela pistola me incomoda profundamente. Falta pouco para terminar o relato de como eu cheguei até aqui. Na verdade, estou na reta final e isso me apavora, porque tenho a forte impressão de que quando acabar os dedos que estão encostados no gatilho vão pressioná-lo.

Os dias que se seguiram ao primeiro encontro com Vera e, principalmente, depois daquela primeira vez em que estivemos na cama, foram de apreensão. Em primeiro lugar pelo fato de não ter contado nem a Vera sobre o meu pacto com as três Marias e nem a elas sobre a minha estonteante e definitiva paixão por Vera. Sempre que pensava em falar para as três o meu estômago se transformava em um embrulho malfeito de feira. Sentia um profundo senso de dever para com elas e ao mesmo tempo, justamente por esse senso, sentia que não era justo estar com elas ao mesmo tempo em que outra mulher tomava conta de todos os meus sentidos e do meu coração. Bem, não é preciso dizer que era ainda mais injusto com a própria Vera. Ser desonesto com ela era a principal razão das minhas dores de caebeça e da minha consiência que mais parecia um promotor público apontando o seu dedo acusador para mim debaixo de uma toga encardida e malcheirosa. Não há nada pior do que a indecisão. Equilibrar-se no fio entre duas atitudes, sendo que este fio é tão afiado que maltrata a sola do seu pé. Mas foi o que decidi fazer até achar um meio de contar a elas.

É lógico que eu passei a me comportar com um certo distancioamento em relação às três. A minha dedicação integral era humanamente impossível. Maria Amélia nem percebeu. Com seu jeito infantil, ela continuou me ligando quando dava na telha e seguíamos trepando por todo aparamento em posições cada vez mais esquisitas. Seguramente é a que mais se divertia. Não era capaz de perceber o meu natural afastamento emocional. Eu era um brinquedo na mão de uma criança. Era a mais desapegada de todas. Uma separação, para ela, seria pouco traumática. Na verdade, não seria trauma nenhum.

Com Maria Alice seria bem mais complicado. Aquele negócio de menage a trois com o Peraltinha perdera todo o sentido. Passei a me sentir o mais ridículo dos seres humanos e, impulsionado pela paixão verdadeira que estava sentindo, passei a enxergar aquela pobre mulher como uma patológica sexual. Tentei algumas vezes convencê-la a deixar o Peraltinha na caixa e irmos os dois para a cama, mas ela recusava terminantemente a fazer sexo só comigo. O Peraltinha tinha que estar sempre conosco, falando obsenidades no seu ouvido. E “ai de você se não for assim”. Aquele, “ai de você” provocou calafrios que percorreram minha espinha de cima a baixo.

Maria Clara obviamente percebeu o meu distanciamento. E como sempre foi a mais direta de todas. Não teve problemas em me perguntar tudo. Na cama, depois de uma sessão de sexo, ela acendeu um cigarro e, toda borrada de maquiagem de palhaço que eu estava usando, começou a me questionar:

– O que é que você tem?
– Como assim?
– Como assim é a resposta mais usada para quem quer sair pela tangente.
– Me dá um trago do seu cigarro? – Desconverso
– Não, você não fuma – irrita-se. – Por que você está distante?
– Não sei.
– Olhe nos meus olhos.

Comecei a rir.

– Rindo do que?
– Desculpe, mas é difícil falar sério com você toda borrada de maquiagem.

Ela também começou a rir. Os dois riam, um alimentando o outro até o riso virar uma gargalhada retumbante. E naquele momento eu senti algo terno por Maria Clara. Eu a beijei. Ela respondeu o beijo com vontade. E trepamos novamente. E ela não perguntou mais nada. Foi para o banheiro tomar um banho. Enquanto ouvia o chuveiro, ficava remoendo algumas idéias que vinham à mente. Maria Clara provavelmente já sabia que o pacto não ia durar por muito tempo. Talvez soubesse até o porquê. E isso me assustava. Ela me parecia a mais carente das três. As vezes o seu olhar me dava medo. Sinceramente, achava que ela podia ser capaz de qualquer coisa se contrariada.

Ela saiu do apartamento e me dixou lá. Nem bem bateu a porta e o meu celular tocou. Atendi automaticamente, sem ver o número no visor.

– Alô?
– E aí, seu palhaço de merda?
– Xuxu?
– Ele mesmo, em madeira e pano.
– O que é que você quer?
– Será que aquele aviso amável não foi o suficiente, seu filho da puta?
– Meu Deus! Só tem porcaria nessa sua boca de boneco?
– A sua boca é que vai ficar cheia de formigas se você não ouvir o meu aviso, seu imbecil: saia do nosso negócio.

Ele bateu o telefone com tanta força que o estalo incomodou o meu tímpano. Calafrios percorriam meu corpo de maneira descorndenada. Eu claramente fui ameaçado de morte. Depois, comecei a rir do ridículo. A tal ameaça havia partida de um boneco de ventríloquo pelo celular. Eu devia estar enlouquecendo, pois eu dissosciava o boneco do seu manipulador, o palhaço Xexé. Parecia-me óbvio que aquilo era para me assustar. Estava fora de qualquer razão eu ser assassinato por alguém só porque eu fazia sucesso no meu ramo de trabalho. Ainda mais sendo esse alguém um boneco. Assumi que o tal Xexé era um maluco. Um completo maluco.


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