Maria Alice
O recado na caixa postal do meu celular era conciso e muito claro. “Quero ver você e o seu amigo Peraltinha amanhã às três e meia da tarde em nosso lugar. Beijos. Maria Alice”. O amanhã era hoje. Estava tão cansado na noite anterior que desliguei o telefone e fui para a cama cedo. Tentei em vão ler uma revista. Adormeci na segunda linha de um artigo qualquer. O que me intrigava naquele recado era aquele “Quero ver você e o seu amigo Peraltinha”. Que diabos tinha ela na cabeça? Que planos sexuais ela reservava para aquela tarde? Ela sempre foi a mais discreta das três. Séria, de pouca conversa, sempre muito direta. Exatamente como o recado que tinha deixado. Mas eu não tinha absolutamente nada a questionar. Se tivesse a intenção de continuar com a minha “dolce vita”, tinha que cumprir minha parte no acordo. Mas confesso que, levar o Peraltinha para uma seção de sexo era algo que ia um pouco além do que eu tinha imaginado.
Eram três e trinta e dois da tarde quando abri a porta da garçoniere. Maria Alice estava sentada no sofá da sala com uma taça de dry martini nas mãos. Ela estava bebendo aquela coisa bem no meio da tarde de um dia de semana. Seus olhos um pouco injetados combinavam com a nova cor do seu cabelo. Ela agora estava ruiva. Estava muito bem feito, o que não é de se surpreender. Gosto muito de cabelos ruivos em uma mulher. Ela se levantou e caminhou com passos lânguidos em minha direção. Diria que um pouco da languidez era culpa das doses da bebida que ela havia ingerido. Passou os braços pelo meu pescoço a língua gelada pela minha orelha. Estava usando um vestido com alças, muito leve e estava de pés descalço. Era a mais magra das três. Aquela língua gelada pelo dry matini estava me deixando bem louco. Larguei a mala onde estava o meu amiguinho Peraltinha no chão e ela protestou.
– Cuidado com o nosso amiguinho – apesar de falar no meu ouvido, era possível sentir o ar carregado de bebida saindo de sua boca – ele tem que estar inteirinho para daqui a pouco.
– Como assim? – Perguntei com medo da resposta.
– Eu adoro um ménage a trois.
Ela se afastou, preparou dois dry martinis e me estendeu um deles. Confesso que ela me amedrontava um pouco. Antes de beber, ela tirou o vestido. Exceto ela, não havia mais nada embaixo dele. Nem sinal de calcinha ou soutiein. Estava como viera ao mundo. Claro, com um pouco mais de peito e bunda, eu diria. Ela se recostou no sofá e me chamou para perto dela com o dedo indicador em forma de gancho fazendo movimentos repetidos. Eu obedeci. Em seguida, começou a jogar o dry martini pelo corpo e sussurrou um “bebe” quase inaudível. Eu bebi até ficar com câimbra na língua. Duas taças. De certa forma, sentia-me o cachorrinho da madame. Ela gemia muito. Era, de longe, a mais barulhenta das três. Depois levantou e disse.
– Traga o seu amiguinho e venha pra cama.
– O meu amiguinho está sempre comigo. E está bem duro.
– Estou falando do Peraltinha.
O que aconteceu daí em diante foi um tanto bizarro para os meus padrões, mas de certa forma, excitante. Eu transava com ela enquanto o Peraltinha falava Frases obcenas no ouvido dela. No início foi meio difícil pegar o jeito e o equilíbrio. Tinha que ser dois ao mesmo tempo. Mas na medida em que o tempo passava eu consegui achar o ritmo. Ela urrava e só falava com o boneco. Pedia para ele falar coisas que deixariam o rosro de qualquer pessoa da cor do meu nariz falso. Vaca era o que de mais leve ele teve que falar no ouvido de Maria Alice naquela tarde. Na hora, entretanto, nem eu nem ele estávamos nos preocupando com isso. A excitação e a bebida misturados nos fizeram perder a noção da normalidade. Era o que Maria Alice queria. Todos juntos, numa orgia louca, desenfreada. Num estado etílico avançado. Era como se ela quisesse estar fora da realidade. Como se fosse em um universo paralelo, uma outra vida. Era isso que ela desejava. Foi isso que ela teve.
Peraltinha
Depois daquela tarde com Maria Alice, algo mudou radicalmente na minha vida. Seria impossível enxergar o Peraltinha com os mesmos olhos outra vez. Ele tinha esse apelido justamente por ter uma personalidade forte, não tão politicamente correta, porém, infantil. Ele fazia e dizia peraltices. Mas naquela cama sua personalidade havia se transformado de uma maneira irreversível. Ele havia tido uma experiência sexual, a primeira, e já participara de uma orgia sem precedentes, com direito a ficar bêbado.
Naquele dia, quando cheguei em casa ainda um pouco tonto, lembro-me de ter ido tomar um banho demorado. Quando saí do banho, dei de cara com o Peraltinha jogado na poltrona da sala de estar. Ele me encarava com aquele ar de riso permanente de boneco, só que com algo de safadeza adulta. Pode parecer ridículo, mas o fato é que até a expressão em seus olhos já não era mais a mesma. A inocência havia se esvaído daquele olhar. Eu olhava para ele e imagens da orgia recente vinham-me a mente. Ele falando aquelas coisas obcenas e a cada uma ela gemia e gritava, enquanto eu a penetrava. Sentei ao lado do meu amiguinho. Era preciso ter uma conversa com ele.
– Então, amigo velho, o que foi isso?
– Uma tarde de sexo louco – ele responde – e eu adorei.
– Nossa! Como você cresceu, meu amigo.
– Eu não quero mais me apresentar em seus shows.
– Como?
– Estou de saco cheio, estou pedindo demissão. Só quero sair da mala para encontrar Maria Alice.
– Mas você faz parte importante no show.
– Você acha que eu vou encarar aquelas crianças depois de tudo o que aconteceu? Você acha que eu consigo falar coisas engraçadinhas depois das coisas que eu disse? Não tem mais volta, Alê. Estou fora. Nem você conseguiria encarar a criançada comigo no seu colinho. – Falou irônico. – Você iria lembrar de todas as coisas que eu disse e fiz.
– Como assim, fez?
– Não diga que você não viu quando pus a cabeça no meio das pernas dela? – Ele geme. – Ela adorou o meu nariz roçando nela enquanto você trabalhava.
Eu tinha que aceitar. O meu amiguinho conhecera uma outra realidade. Provara do fruto do prazer e havia gostado de tal maneira que não era mais possível continuar a sua carreira.Era irreversível. Peraltinha agora só saía de sua maleta para se encontrar com Maria Alice. Ele passou a morar naquele apartamento.