E o palhaço o que é? – Parte 6

Maria Amélia

Mal entramos no elevador da garagem e Maria Amélia saltou sobre mim. Foi me bolinando, enquanto arfava no meu ouvido durante a subida. Estava totalmente louco com aquela mulher que parecia uma faminta da Biafra que de repente se viu em frente a um banquete de embaixada. Entramos no apartamento e ela foi tirando a roupa. Nenhuma palavra. Ela tirando a dela e eu a minha. Meu Deus, que corpo aquela mulher tinha. Apesar de Maria Clara já ser um fenômeno, Maria Alice era um outro departamento. Tinha músculos muito bem delineados e uma bunda dura. Duríssima. Uma bunda basáltica. Era um corpo de atleta, sem dúvida nenhuma. E trepar com ela exigiu também muito preparo físico. Esqueça a cama. Ela não usa. Transamos sobre tudo o que uma mente sem limites era capaz de imaginar. E nunca deitamos. Deitar com ela não era uma opção. Testamos nosso equilíbrio nas costas do sofá, em pé na soleira da porta do quarto, sobre a bancada da pia da cozinha, no banho, enfim, foi uma verdadeira excursão por dentro do apartamento. As vezes levávamos alguns tombos, o que provocava aquela gargalhada sublime de Maria Amélia. Mas como Maria Clara, que pediu para me vestir de palhaço, Maria Amélia também teve lá a sua excentricidade. Mas eu confesso que foi uma experiência e tanto. Depois de já termos passado por alguns lugares interessantes engatados um no outro, paramos para descansar. Sentados no sofá da sala, nus e suados. De repente, ela se levantou e me encarou com o olhar mais convidativo que eu ja recebi na vida.

– Cansou, coisinha fofa?
– Não vou mentir.
– Mas eu quero mais.
– Tudo bem, eu só preciso de um tempinho.
– Não precisa não – falou com express ão mais infantil que a de qualquer criança. – Eu já volto.

E foi para a área de serviço. Aquela bunda empinada e rígida em movimentos pendulares já começava a provocar mais uma reação no meu melhor amigo ali no meio das pernas. Ouvi um barulho estranho vindo da área de serviço. Ou eu muito me enganava ou era a lavadora de roupa. Ela voltou de lá e estendeu a mão para mim.

– Vem.

Segurei aquela mão convidativa e fui conduzido para a área de serviço. A lavadora de roupa funcionando na função de centrifugação. Ela pediu para eu sentar sobre a máquina. De repente eu entendi tudo e fiquei de pau duro na mesma hora. Eu e sentei sobre a lavadora que chacoalhava freneticamente. Ela veio para cima de mim, de frente, e encaixou meu pau dentro dela. Não era preciso fazer nada, apenas ficar parado aproveitando o chacoalhar da lavadora. Ela me olhava e sorria. De vez em quando beijava o meu pescoço. Aquele chacoalhar fazendo todo o trabalho e várias vezes o gozo quase veio para mim e para ela. Nenhum de nossos músculos fazendo esforço. Um delírio, algo impensável. Gozamos um pouco antes da centrifugação terminar. Ficamos abraçados um tempo sobre a lavadora. Ela pôs a boca no meu ouvido e, sussurrou:

– E o palhaço o que è? Ladrão de mulher.

Competição

Graças àquelas três maravilhosas mulheres eu estava me tornando uma verdadeira estrela. Uma sensação cada vez mais comentada entre os buffets infantis de primeira linha. É claro que não eram apenas graças às três. Eu sempre tive muito talento, uma mente realmente inventiva e paciência no trato com as crianças, que eram decisivos para o meu sucesso. Junte-se a isso algo que eu até então não descobrira: trato com mulheres mais velhas e mais ricas. Pronto. Eis a minha receita para me tornar a lenda viva no mundo da diversão infantil.

Em quatro meses de atividade eu já tinha mudado para um bom apartamento e comprado um carro. O apartamento tinha um escritório que eu tinha transformado numa espécie de atelier, onde eu criava e ensaiava novos números. Eu não tinha assistente fixo, porque eles poderiam descobrir do meu pacto com as Marias e bater com a língua nos dentes, o que acabaria numa tremenda confusão e provavelmente com a minha mamata. Talvez até com a minha vida. Usava quatro sujeitos em revezamento, que me ajudavam em procedimentos como troca de roupas e de elementos de cena. No palco eu trabalhava só. Essa solidão me obrigou a desenvolver números criativos, diferentes, o que acabou ajudando ainda mais a criar a fama que passei a desfrutar. Para dar um toque especial, criei uma espécie de currículo. Obviamente que haviam ali algumas coisas inventadas como ter estudado no “Clown Skills Intitute” em Toronto, Canadá.

O sucesso era tão inebriante que nem percebi a reação invejosa da concorrência. O mercado de animação para buffets de primeira linha era muito restrito, um círuculo fechado dividido entre quatro ou cinco animadores que convivem em um acordo tácito, uma espécie de oligopólio da diversão. A entrada de um novato e, ainda por cima, fazendo aquele sucesso arrasador perturbava essa ordem estabelecida em que viviam sem maiores preocupações de competir.

Senti esse incômodo dos competidores na pele. Foi num dia qualquer da semana, eu andava tranqüilamente pela rua sem perceber que um carro parou no meio fio de uma maneira suspeita. De dentro dele saíram duas figuras enormes sobre todos os sentidos que alguém queira aplicar a palavra e me arrastaram para dentro do veículo, no banco traseiro. Era uma van, com vidros muito escuros. De um lado do banco, um brutamontes e do outro, um sujeito magricela, vestindo uma camiseta onde estavam impressos um logotipo da Xexé Enterprises. Já tinha ouvido falar neste tal Xexé. Era o maior expoente dos buffets infantis chiques. O Palhaço Xexé. Ele me encarava com um sorriso constante no rosto, na verdade, a boca esticada para os lado e levemente arqueiada para cima nos cantos. Um olhar de escárnio. Ficamos nessa situação por algunbs segundos e eu nem tinha percebido que havia um boneco de ventríloquo do colo dele até esse boneco, muito mal educado por sinal, começar a falar comigo. O nome do pequeno era Xuxu, com “x” mesmo, pra combinar com Xexé. Eu também já tinha ouvido falar nele. Era uma espécie alter ego do palhaço Xexé, como acontece em todos os casos de ventriloquismo. Mas ele não era aquele alter ego apenas politicamente incorreto. Era mau. Um boneco muito esquisito. Tinha orelhas de abano e olhos perversos.

– Ouça aqui, meu filho, nós não estamos satisfeitos com a sua intromissão em nosso círculo fechado.
– Calma, Xuxu! – Xexé acalma o boneco com voz suave, mas o sorriso sempre pregado naquela cara – Ele é um pouco nervoso – completou olhando para mim.
– Ele e o seu amigo grande aqui do lado – completei.
– O meu primo Muscles?
– Como?
– Muscles, seu ignorante! – Grita o boneco – Músculos em inglês. Bem que eu vi que esse seu currículo é furado.
– Xuxu, não trate mal as visitas no nosso carro – Xexé repreende o boneco. – A verdade, meu amigo Lelé, é que você está fazendo muito sucesso.
– Fazer o que, né?
– Você está tomando o nosso mercado muito rapidamente e isso não é nada bom.

Xexé faz uma pausa misteriosa e dramática olhando para a janela enquanto Xuxu e Muscles me encaram. Depois fala em tom de voz mais sibilante.

– Deixa muita gente nervosa.
– Bem, se vocês não perdessem tempo em ficar nervosos e trabalhassem criando coisas novas, talvez não ficassem assim, nervosos.
– Você não entendeu, meu amigo. Eu não estou nervoso. O meu amigo Xuxu é que está.
– Estou sim, estou puto dentro das calças – o boneco põe a cara na minha frente. Se tivesse bafo, eu sentiria. – Por mim acabava com a tua raça. A tua e a do seu amiguinho, Peraltinha. Isso até é nome de viado. Vai ver que é viado, o Peraltinha.
– Está vendo? – Xexé retoma calmo.  – O Xuxu tem pavio curto. E, além disso, o Muscles aqui tem adoração por ele. Faz tudo o que ele pede. É uma amizade que dá até emoção de ver. Olha – ele mostra o baço. – Todo arrepiado só de falar em tão sincera amizade. Mas voltando ao que interessa,  por enquanto eu estou conseguindo mantendo as coisas em termos civilizados. Mas sabe-se lá quando o Xuxu vai agir pelas minhas costas.

O carro parou na frente do meu edifício. O que significa que eles sabiam onde eu morava. Aquele boneco filho de uma puta me deixou nervoso. Depois de uns minutos me dei conta de que estava dando autonomia para um boneco, imaginem. Um boneco chamado Xuxu que acabara de ameaçar a minha vida. O Xexé podia não ser criativo nos seus números, mas estava sendo no jeito de me ameaçar. OU criativo ou completamente louco, que era a opção mais próxima da realidade. Pensava nos acontecimentos recentes enquanto subia o elevador. E, de repente, um novo pensamento cortou a minha mente como uma navalha afiada e fria. Já que eles sabiam onde eu morava, será que sabiam das três Marias?


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