E o palhaço o que é? – Parte 5

As três Marias

Dois dias se passaram depois daquela tarde de sexo impecável. Nesses dois dias eu recebi telefonemas de muitas mães. Amigas de Maria Clara, algumas viram minha atuação na festa do Felipe e ficaram encantadas com o meu carisma. Agora eu tinha realmente uma agenda. Folhas brancas não existiam mais. Em dois dias eu já tinha oito festas marcadas. Estava me sentindo outra pessoa. Confiante e auto-sustentável. Eu precisava agradecer o Júlio César. Foi a indicação dele que provocou esta reviravolta estrondosa. Tinha perspectiva. Fazia o que gostava, o que tinha talento pra fazer, ganhava uma boa grana e ainda trepei com uma das minhas clientes que era uma maravilha de mulher em todos os sentidos. A fortuna, que vivia virando o seu lindo rosto quando eu passava, resolvera mudar de idéia e passou a me notar e me achar lindo também.

Um dos tantos telefonemas recebidos nesse período era de Maria Clara. Marcou um almoço comigo e as outras duas Marias num restaurante da moda. Daqueles em que a primeira coisa que você tem vontade de comer não é um dos pratos do menu, mas a hostess, que está lá pra isso mesmo: fazer você voltar lá sempre com a falsa esperança que vai conseguir.

Resisi bravamente aos encantos desta sereia da recepção, que tentou me hipnotizar com seu sorriso e gentileza, enquanto me levava até a mesa onde as três Marias ja estavam sentadas. As três eram uma coisa de louco.  Que tipo de homem trata mulheres como aquelas como se fossem comuns? Sentei-me na cadeira vazia que estava a minha espera.

– Bom – Maria Clara começa o assunto – é melhor discutirmos o nosso arranjo agora, enquanto bebemos o nosso aperitivo.
– Arranjo? – Pergunto surpreso. – Do que estamos falando?
– Alê, como você já percebeu, muitas amigas de nosso círculo já ligaram para você.
– Você é uma celebridade – intervém Maria Amélia, sempre mais espevitada.
– Bom, meu querido – retoma Maria Clara – isso obviamente tem um preço.
– Eu não colocaria a situação nesses termos, Clara – Maria Alice discorda – fica parecendo que somos, como vou dizer?
–  Prostitutas? – Maria Alice responde de bate-pronto.

As três se entregam a uma gargalhada e eu fico qual um pateta olhando para a cena. A curiosidade queimando meu estômago.

– Por favor, gente. Dá para explicar onde é que as coisas vão chegar?
– Meu querido Alexandre – Maria Alice responde – estamos propondo um pacto.
– É muito simples, meu amor, muito simples – Maria Amélia sempre rindo – nós viramos suas empresárias e você é nosso.
– Como assim, sou de vocês?
– Ela quer dizer que, com o nosso círculo de amizades, você tem festas garantidas até o próximo século, agenda cheia, mas para isso, você vai ser nosso naquele apartamento.
– E só nosso. – intervém Maria Alice.
– Isso, todinho, todinho – completa Maria Amélia como se fosse uma criança.
– Resumindo: vocês enchem a minha agenda…
– E você nos enche de prazer, cherry.
– Maria Amélia, por favor – irrita-se Maria Alice.

Uma coisa era cristalina. Eu estava feito. Uma agenda cheia de festas classe AA e para ter isso bastava eu ser fiel a três mulheres do outro mundo. Naquele momento eu entendi o que a Maria Clara quis dizer com eu ser muito feliz naquele apartamento. Minha vida definitivamente tinha dado uma guinada. A guinada dos sonhos. Quer dizer, com aquelas três mulheres envolvidas, era mais do que eu podia sonhar. Fizemos os pedidos, conversamos sobre amenidades, elas choraram suas mágoas de mulheres mal amadas. Maria Clara era realmente a que tinha personalidade mais forte. Maria Amélia, apesar de ser um ano mais velha do que as outras, parecia uma colegial, sempre rindo, mesmo quando reclamava do seu marido. Maria Alice era bem mais discreta. Falava pouco. Ouvia mais. A mais erudita, fluente em cinco idiomas.  No final deste encontro de negócios regado a um belo cardápio, Maria Amélia se ofereceu para me levar em casa. Quando estávamos no carro, percebi que ela não estava indo em direção a minha pensão e sim para o apartamento. Lá ia eu cumprir minha parte no acordo, agora com ela. Feliz da vida.


Leave a comment