A estréia
Cheguei cedo ao local. Tinha feito o reconhecimento do buffet no dia anterior, mas fui numa hora em que não estava ocorrendo festa alguma. Em funcionamento, tudo era diferente, parecia outro mundo. Era enorme e os brinquedos eram de última geração, alguns até da próxima geração. Havia um trenzinho com aquilo que as propagandas de carro costumam chamar de “design arrojado”. Ele corria perto do teto, dentro de tubos e em parte do seu trajeto, saía das dependências do buffet por um lado, entrando por outro. Robôs brilhantes e falantes, jogos eletrônicos estalando de novos e o palquinho, que agora via iluminado. Era a primeira vez que eu ia me apresentar em um palco. Aquilo me deu frio na barriga. Estava parado no meio daquela parafernália, gelado, suando frio quando ouvi aquela voz.
– Oi, Alexandre.
Virei-me e ela estava ali, dentro de um vestido simples, sem muitos enfeites, com um decote que mostrava o colo de seios que pareciam de uma adolescente, o que ela definitivamente ela não era.
– Boa tarde, Maria Clara.
– É bonitinho aqui, não é?
– É quase um circo.
– Se você está procurando o seu camarim, é subindo aquela escada – apontou. – Eu tenho que tratar de algumas coisinhas. Depois eu dou a atenção que você merece.
Claro, o Camarim. Na minha visita no dia anterior eles falaram em camarim e eu achei que só podia ser um exagero. Devia ser um quarto, alguma salinha. Quando subi as escadas, guiado por uma funcionária muito gentil que adorava falar no gerúndio, dei de cara com um camarim de verdade. Com direito a espelho rodeado por lâmpadas e até algum material de pintura, quem sabe para algum palhaço com falta de memória que pudese, por acaso, esquecer o seu material em casa. Não era o meu caso. Havia checado e re-checado tudo. Estava com todo o meu material e, claro, com meu grande, e inseparável amigo, Peraltinha. Feito de madeira e pano, com mais ou menos oitenta centímetros de altura. Peraltinha era o ponto alto do meu show. O momento maior onde, após um monte de brincadeiras e mágicas, eu mostrava minhas habilidades de ventriloquista. Era uma parte muito interessante do show, pois o Peraltinha sempre foi uma espécie de meu alter ego politicamente incorreto. Por isso mesmo, esta parte do show sempre chamava a atenção dos pais também, que paravam para assistir o ato com mais atenção e até participação, embora esse desleixo de comportamenteo do meu pequeno amigo fosse voltado para a criançada.
A hora se aproximava e eu ouvia o som da criançada lá embaixo. Um som que ia aumentando a cada minuto. O consumo de docinhos era como encher de combustível máquinas de correr e fazer barulho. Olhei-me no espelho. Ali estava o Lelé, finalmente, num lugar que merecia. Finalmente num buffet a altura do seu talento. Olhei fixamente para aquele palhaço no espelho. Respirei fundo. Peguei o Peraltinha que, sabendo da minha ansiedade, como um bom amigo, lascou seu desejo de boa sorte típica do teatro:
– Merda!
Sucesso
Após a minha apresentação, já em roupas civis e sem a maquiagem, desci as escadas que levavam do camarim ao salão principal. Havia crianças que ainda insistiam em correr e brincar. Os remanescentes da festa que se comportavam como partículas ínfimas correndo e se chocando ao acaso. Suas roupas compradas em lojas caras estavam completamente manchadas de brigadeiro, glacê, refrigerante e outras coisas de cores muito difíceis de definir. Algumas com pinturas de animais na cara e os sapatos, há muito, jogados em algum canto fazendo com que as meias, compradas nas mesmas lojas caras, terminassem a festa com rombos enormes. Ao pé da escada, Maria Clara me esperava com um sorriso que quase me fez rolar os cinco degraus restantes.
– Que sucesso, hein? O meu filho achou você incrível.
– Ele merece. É um garoto muito legal.
– Vem aqui – disse ela me pegando pela mão. – Quero apresentar você a duas amigas. Elas querem contratar os seus serviços.
Ela me levou até uma mesa onde estavam outras duas mulheres. Elas aparentavam ter a mesma idade de Maria Clara e também o mesmo dinheiro. Eram tão bonitas quanto a Maria Clara, cada uma ao seu jeito.
– Gente, aqui está o sucesso da festa – Maria Clara agora põe o braço no meu ombro – o palhaço Lelé, agora como Alexandre.
– Muito prazer! – As duas estendem as mãos e juro que estão com olhares quase lânguidos.
– Prazer – eu respondo e me precipito para beijar o rosto das duas.
– Essas são Maria Amélia e Maria Alice –ela s apresenta enquanto eu as cumprimento – duas amigas. Duas grandes amigas.
– É, nós dividimos tudo. – Maria Amélia fala, afetada. – Tudo mesmo, até você.
Elas caíram numa gargalhada gostosa. Depois tratamos de alguns detalhes sobre a festa dos filhos das outras Marias ali presentes. Obviamente eu disse que ia checar em minha agenda, mas citei a minha boa memória e afirmei quase com certeza que as datas que elas estavam querendo estavam vagas. Despedi-me de todas e Maria Clara me levou até a porta do buffet.
– Você está de carro?
– Não, eu vim de táxi.
– Quer que o chofer leve você?
– Não precisa. – Paro para encará-la por uns segundos. – Eu posso perguntar uma coisa?
– Claro.
– Não vi o seu marido.
– Está viajando – diz com desprezo. – Por mim ainda vá, mas nem pelo filho ele põe a empresa em segundo plano.
– Desculpe, eu vi que o assunto incomoda você.
– Não é sua culpa o fato do meu marido, ou os maridos da Maria Amélia ou da Maria Alice, nunca estarem presentes.
– De qualquer jeito, me senti metido.
– Não – e estendeu um envelope para mim. – O resto do seu pagamento.
Naquela mesma noite deitei em minha cama e sabia que não ia conseguir dormir. Havia várias razões para ficar olhando para aquele teto que supostamente devia ser branco, mas já estava amarelado e com rachaduras cujo desenho se assemelhava muito ao rio Amazonas visto de um satélite. A primeira delas era o fato de ter realmente ingressado no mundo maravilhoso dos buffets dos ricos. Já tinha duas festas marcadas. E pelos mesmos honorários da festa que eu acabara de animar. Tinha mesmo feito sucesso. A segunda razão era Maria Clara e suas outras duas amigas. Havia entre elas uma cumplicidade que ultrapassava a simples amizade. É difícil descrever, mas eu tenho sensibilidade suficiente para perceber que elas tinham uma espécie de pacto para viver a vida. Eram lindas, inteligentes, bem tratadas, tinham praticametne a mesma idade e um problema em comum: maridos que dão tudo, menos atenção para elas e para os filhos. Mas o que realmente me deixou ansioso estava dentro do envelope com o pagamento que Maria Clara me deu ao sair do buffet. Ali, além do cheque com os meus honorários e uma polpuda gorjeta, havia um pequeno bilhete. “Alameda Campinas, 1265 ap.102. Encontre-me amanhã nesse endereço às 15 horas. Por favor, traga sua roupa de palhaço”.