Na manhã seguinte o telefone o celular tocou me fazendo pular da cama. O celular pulou junto, já que eu peguei no sono de barriga pra cima e com ele no meu peito. Saí desesperado a sua procura enquanto tocava. Precisava ser mais rápido que a caixa postal. No desespero em que me encontrava para achar o aparelho, topei com a canela na quina da cama. Mas não havia tempo para sentir dor nem para praguejar. Finalmente encontrei o celular embaixo do móvel onde ficava a televisão.
– Alô? – Atendi, ofegante.
– Alexandre? – Uma voz feminina, rouca e forte do outro lado.
– Ele mesmo. Falo com quem? – Como se eu não soubesse quem era.
– Meu nome é Maria Clara – esclareceu. – Estou ligando por indicação do Julinho – Julinho, vejam só, isso ele não me conta. – Ele disse que você é um grande animador de festas infantis, como é mesmo o nome do seu personagem?
– Lelé, o palhaço.
– Exatamente! Ele me disse que o Lelé faria o maior sucesso na festa do meu filho. É na semana que vem, no dia quatro, você está livre?
– Um momento, eu vou consultar a minha agenda.
A frase foi um reflexo, uma jogada de marketing. Pareça ocupado e ganhe respeito. Até porque a minha agenda era uma seqüência de folhas em branco. Quer dizer, não totalmente em branco. Havia os dias da semana e do mês impressos na parte superior.
– Perfeito! – Respondo. – No dia quatro está perfeito. A que horas?
– A festa vai começar às 18 horas.
– Eu preciso do endereço para poder me comunicar com os proprietários do buffet e checar o local da apresentação.
– Muito profissionalismo da sua parte. Gosto disso.
– Tudo pela alegria das crianças, minha senhora.
– Por favor, apesar de casada, tem coisas que prefiro manter como antes. Nada de senhora.
– Você manda!
– Falando nisso, precisamos nos encontrar antes da festa para fechar os últimos detalhes. Preciso conhecer você pessoalmente antes de contratá-lo.
– Justo.
Na tarde naquele mesmo dia eu estava no lugar combinado: um shopping chique da cidade onde ela iria fazer umas comprinhas. Ela marcou comigo em um café no piso superior e descreveu a roupa que usaria. Eu também descrevi a minha, que, nos padrões antigos, seria definida como uma roupa de domingo, em plena terça feira. Subi dois lances de escadas rolantes e cheguei ao café. Ninguém usando roupa com a descrição dada por ela se encontrava ali. Sentei e pedi um expresso. Era caríssimo. Mas eu devia encarar aquele despêndio de dinheiro como investimento. Cinco minutos depois ela apareceu. O número de sacolas em cada mão era assustador. No entendimento de uma pessoa em total crise fianceira, como era o meu caso, aquilo estava longe de ser definido como comprinhas. Estava prestes a fazer parte de um encontro de dois mundos completamente diferentes. Só possível naqueles termos: ela pagava para eu ser o palhaço.
Levantei-me para que ela me localizasse. Era uma mulher e tanto. Que corpo! O Julio César era mesmo muito bom. Cabelos negros ondulados harmonizando com feições fortes, marcantes. Um olhar decidido e ao mesmo tempo com certa tristeza. Devia medir um metro e setenta. Apesar do jeans, era possível vislumbrar pernas torneadas. Era robusta, mas muito bem distribuída. Ao me ver, abriu um sorriso que quase me derrubou. Veio em minha direção com aquele sorriso de dentes sadios, simétricos e alvos cercados pela moldura vermelho escura dos sues lábios. Parecia feliz em me ver. Parou na minha frente exalando um perfume caro.
– Alexandre?
– Maria Clara.
– Muito prazer – a voz parecia um pouco mais suave do que a do telefone. – Vamos sentar?
Havia apenas uma cadeira desocupada em nossa mesa, e obviamente era insuficiente para deixar aquela penca de sacolas. Foram necessárias mais duas cadeiras e mesmo assim as sacolas tiveram que ficar umas sobre as outras.
– Estou aproveitando a liquidação do shopping– ela fala enquanto acomoda as sacolas. – Os preços estão ótimos.
O shopping estava liquidando? Pelo que eu concluí dos preços dos preços que testemunhei nas vitrines era uma liquidação em que tudo estava de exorbitante por apenas caro.
– O Julinho falou muito bem do seu trabalho.
– O “Julinho” é um bom amigo.
– Eu gostei de você. – Falou aquilo me olhando fixamente. – Gostei muito de você.
– Mas só falamos uma vez pelo telefone e não faz nem cinco minutos que estamos conversando.
– Digamos que eu sou sensitiva. – Ela aproximou o rosto ainda mais do meu. – Não preciso de muito tempo para gostar de alguém. Ou odiar. E de você eu gostei.
Aquela conversa tomou um rumo estranho. A parte da minha contratação foi muito rápida. E rentável. Eu chutei um cachê alto e ela aceitou sem pestanejar. O triplo do que eu cobrava normalmente. E ainda pagou metade na hora. Depois, ela passou a fazer perguntas sobre a minha vida pessoal. Inúmeras. Maria Clara não era só fisicamente bonita. Era charmosa e insinuante. Havia algo mais do que uma relação contratante-contratado se formando naquele momento, embora eu me recusasse a acreditar que uma mulher daquela casta fosse sequer notar a minha existência enquanto homem.
– Bem, Alexandre, infelizmente eu tenho que ir. O Felipinho vai chegar da escola daqui a pouco e eu gosto de estar em casa quando ele chega.
– É bom para o menino saber que a mãe dá carinho e atenção.
– Tem dias que a mãe gostaria de receber carinho e atenção – falou com os olhos fixos nos meus. – Se você for tão engraçado como palhaço quanto é charmoso, vai fazer o meu filho e os amigos dele muito alegres.
Aproximou seu rosto do meu e me beijou na face esquerda. Seu perfume invadiu minhas narinas, sua respiração invadiu meus ouvidos. Ela roçou o seu rosto no meu. Levantou-se, pegou as sacolas e se afastou sem olhar para trás. Eu fiquei paralisado, olhando Maria Clara se afastar até se misturar ao batalhão frenético de compradoras aproveitando os preços incríveis da tal liquidação. Era uma mulher impressionante. Lembrei-me de Julio César. Olhando os movimentos ritmados daquele conjunto de curvas, saliências e protuberâncias pensei na justiça que tinha feito a ele na noite anterior quando o chamei de Michelangelo. Se o artista italiano exculpisse uma Maria Madalena, ali estaria ela. Sem as sacolas e sem aquele jeans branco agarradinho. Eu me peguei completamente excitado. Uma rocha no meio das pernas. Se eu levantasse dali naquele momento, as senhoras frenéticas iam perceber certo entumecimento por baixo das minhas calças. Talvez ficassem mais frenéticas. Precisava esperar um tempo para tudo voltar ao tamanho padrão. Pedi outro expresso. Ja não importava que fosse caríssimo. Agora eu tinha um cheque bem gordo nas mãos.