Eu podia ver o reflexo distorcido do meu nariz vermelho no cano prateado da pistola. Era ridículo morrer vestido daquele jeito. Vestido de palhaço. O personagem e o criador prestes a ir desta para melhor, é o que dizem, mas sinceramente não estava com a mínima vontade de ir para algo melhor, até porque ninguém voltou de lá para comprovar. Como alguém tinha coragem de apontar a arma para a cabeça de um palhaço e simplesmente acabar com a vida dele? Não teve infância? Não lembra do famoso “Hoje tem marmelada? Tem sim, senhor. Hoje tem goiabada? Tem sim, senhor. E o palhaço o que é? Ladrão de mulher”. Ladrão de mulher. Mas que ironia de merda. Ladrão de mulher. A rima que eu tornei realidade. E que agora era a minha condenação. A rima que se tornou uma filosofia de vida, era agora a minha passagem para a escuridão, a inexistência. O palhaço Lelé, alegria da criançada, lenda viva dos buffets infantis estava prestes a virar apenas lenda. E tudo porque eu também era a alegria de algumas mães. Três delas para ser mais exato. Mas enquanto a bala não vem, convido você, querido leitor, a acompanhar o relato do como cheguei a esta situação desesperadora.
O Início
Há pouco mais de um ano eu devia meses de aluguel. Já era o palhaço Lelé e fazia alguns números em festas de aniversário de crianças, mas nunca tive o meu talento reconhecido pelo que eu chamo mainstream no mundo dos buffets infantis. Fazia meus números em buffets de segunda, com aqueles brinquedos descascados, comprados usados e uma piscina de bolinhas que fedia a chulé porque a faxineira dos locais não aparecia com frequência. Os pais pagavam meus honorários em dez parcelas, muitas vezes paravam na quarta ou na quinta e me mandavam reclamar com o bispo. Minha vida estava fadada ao fracasso. Nunca passaria pelos grandes buffets de Moema ou dos Jardins. Ali estava a grana. Ali era o mundo que eu merecia viver, o lugar onde o meu talento merecia ser apreciado.
O meu destino começou a mudar numa noite em que comia tangerinas como jantar e sobremesa ao mesmo tempo – uma idéia que roubei de um livro de Joe Fante, cujo personagem principal, Arturo Bandini, um pretenso escritor sem dinheiro que vivia em um hotel barato, tinha como sua principal fonte de alimentação laranjas cedidas por um feirante oriental muito gentil.
Mas voltando a minha história, eu comia minhas tangerinas, e o meu celular, que eu mantinha a muito custo como telefone de meu escritório ambulante, tocou. Do outro lado da linha estava o meu amigo, talvez único amigo, o Júlio César. Diferente de mim, Julio César estava com a vida mansa. Era personal trainner e tinha como alunas muitas ricaças, mulheres de executivos que podiam pagar o seu preço de 250 a hora-aula.
– Fala, Alê! – Sua voz soava disposta como sempre. – Fazendo o que aí?
– Jantando, ou algo parecido.
– Vamos tomar um choppinho?
– Em primeiro lugar você nunca bebe chopp. Sua profissão não deixa. Em segundo, eu também não. Minha situação financeira não deixa.
– Eu pago.
Eu nem questionei. Ele tinha todas as condições para me fazer aquela oferta e ainda por cima nossa amizade era sincera o suficiente para eu não ter que ficar com aquele papo furado de que não podia permitir que ele me pagasse. Também vi uma oportunidade de ouro de, além de beber chopp, comer algo salgado como bolinhos de bacalhau. Meus dentes já estavam esturricados de tanto ácido cítrico. Excitado pela possibilidade de comida de verdade, levantei-me e fui para bar combinado.
O lugar estava cheio. Gente recém saída dos escritórios, todos prontos para única e exclusivamente rir e se divertir, de preferência falando mal daqueles colegas que não estavam presentes na mesa. Garçons faziam seu costumeiro malabarismo com as bandejas repletas de tulipas se esgueirando pelo espaço apertado entre as mesas. Júlio César, quando me viu, levantou e acenou. Embora como homem eu me torne reticente em descrever qualidades físicas de outro macho da espécie, tinha de admitir que o Júlio César era dono de atributos suficientes para atrair as ricaças. Era forte, mas sua musculatura era bem desenhada e não hipertrofiada pelos exercícios exagerados regados a anabolizantes. Aliás, Julio César tinha horror a tais métodos que ele chamava de “engorda de frangos”. Fora isso, ostentava um sorriso constante no rosto, uma simpatia genética. Tinha lá o seu charme. Não admira que muitas de suas alunas eram também amantes. Cheguei até a mesa e sentei.
– Como está a vida, Lelé? – Pergunta animado.
– Fora a afta na ponta de língua de tanto comer tangerinas e a falta crônica de dinheiro, eu estou bem.
– Pelo menos não vai ter problemas de escorbuto e nem gripe. Choppinho?
– E se você não se importar, um enorme prato de sanduíche aberto pra acompanhar.
Ele estalou o dedo e o garçom com um mau humor calculado veio até nós. O pedido foi feito e, em poucos minutos, nossa mesa estava repleta de coisas deliciosas, tirando a água sem gás do Júlio César.
– E então, Júlio, como vão as alunas?
– Alê, não posso me queixar – diz com os olhos transbordando satisfação – minha agenda está cheia.
– Tanto no horário comercial quanto fora dele, eu presumo.
– Perfeitamente. Você não imagina o poço de insatisfação e tensão sexual que impera nas grandes academias. Minhas alunas têm uma energia acumulada que transborda pelos poros.
– Energia?
– Os maridos primeiro casam com elas, para depois traí-las com outra: a carreira. E aí a coisa entorna – diz com ares de analista.
– Sei.
– Agora, cá pra nós, que é uma sensação fora do comum você dar forma ao corpo que você vai levar pra cama, isso é.
– Digamos que, apesar de não estar casado com alguém que tem uma carreira como amante, tenho uma certa energia acumulada. Essa falta de dinheiro não me deixa comer nada direito. – Falo e logo me arrependo pela piada sem graça.
– E pra que são os amigos?
– O que você está tramando?
– Provavelmente amanhã, uma de minhas alunas, a Maria Clara, vai ligar pra você. Tem quarenta anos, mas que corpo, modéstia parte. O filho dela vai fazer seis anos e eu comentei sobre você. Ela se interessou, e eu dei seu celular. Ela tem muita grana.
– Mais uma das esculturas que você comeu, Michelangelo?
Julio Cesar solta uma gargalhada.
– Essa não. Tem aquele olhar de predadora, sabe? Mulher insatisfeita. Mas eu ainda não tive sucesso com ela. Quem sabe você?
Quem soltou a gargalhada dessa vez, fui eu.
Naquela noite demorei muito para dormir por causa da ansiedade. Se a tal Maria Clara ligasse, eu teria a minha chance de entrar no mundo dos buffets de primeira linha. Era a chance que eu precisava. Além da mãe do aniversariante, muitas mães estariam lá. Muitas possibilidades de trabalho assistindo o meu desempenho. Aquele maldito celular precisava tocar. (continua)