Dez mil metros de altura

Eis-me aqui, na poltrona 31C, corredor, no voo 120 da Delta Airlines com destino a Nova Iorque. Acabamos de passar por uma turbulência. Tenho plena consciência que não foi das mais severas, mas para um fóbico aéreo recalcitrante é sempre uma coisa que beira o apavorante. O que ocorre de especial neste vôo é que resolvi fazer uma auto-análise de campo em tempo real.

O meu homeopata uma vez perguntou do que exatamente eu tinha medo, o real motivo de eu sentir formigamento no saco, frio na barriga, boca seca e uma vontade louca de dar um berro quando as portas da aeronave de fechavam. Após a minha resposta meio rebuscada ele concluiu simpeslmente “bem, você tem medo de morrer”. Não era isso que a minha resposta rebuscada merecia como conclusão, mas enfim, ele é o doutor e eu o paciente.

Mas se ele estivesse na poltrona 120 D, agora, e fizesse a mesma pergunta, a minha resposta seria bem diferente. Talvez nem medo seja, mas a sensação de completa impotência, de dependência. Aqui em cima, estou nas mãos de uma fila de gente, menos nas minhas. Nas mãos dos projetistas da aeronave, dos construtores, dos mecâncios, do piloto e do co-piloto, dos acionistas da companhia aérea (vai que eles são sovinas e resolvem ganhar as custas da revisão das peças?) e, para os religiosos mais fervorosos, turma que , a esta hora e a esta altura eu também me incluo, estou nas mãos de Deus. Este é o meu torturante ciclo de dependência.

Estar nas mãos de outrém me faz sentir como se eu fosse de papel, sabe? O vento sopra levando você pra lá e pra cá, a esmo. O papel não decide nem o que escrevem sobre ele. Não tem a menor ingerência sobre ele ser parte de uma obra-prima da ou um desastre completo da literatura. É fino e frágil. É assim que me sinto neste exato momento, doutor. Uma folha de papel conduzida por algo tão grande, que nem consigo enxergar o que é. São dez e trinta. Ou seja, serei uma folha de papel por mais oito horas e 43 minutos. Ah, que saudade do caderno do qual me arrancaram.

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Eu não sei se acontece com vocês, mas comigo é comum. Quando morre alguém que você acha muito chato e todos prestam homenagens ao falecido, eu me sinto um pústula. Um ser a margem dos sentimentos humanos mais nobres. Estou vivendo exatamente um destes momentos. Sempre achei o Armando Nogueira um dos bípedes mais chatos que ja andaram por este planeta. Meus contatos com o jornalista em questão se resumiram em grande parte a programas esportivos na televisão. Achava-o, além de chato, um dos maiores representantes da turma que tinha como lema nunca escritgo “for a de Rio e São Paulo não há salvação”.

Por isso, nunca me interessei por nada que ele escreveu. Cruzei uma vez com uma de suas crônicas meio que por acaso. Acho que foi no Jornal Nacional. O tema da tal crônica, que leram com pompa e circunstância no ar para todo Brasil, foi o doping do Ben Johnson na Olimpíada de…sei la, esqueci. Era uma apologia ao politicamente correto. As frases começavam sempre com “O que é isso, negão?”. Hoje, o “negão” do texto não seria visto como politicamento correto e provaelmente ele seria chamado a dar explicações aos insuportáveis bons moços de plantão que pululam o nosso mundo nos dias de hoje. Ou, mais provável, escreveria: o que é isso, afro-descendente?

Houve um outro episódio, lembro-me bem. Estava ele, num programa de televisão junto com Luis Fernando Veríssimo. Em dado momento do programa, ele pergunta ao escritor gaúcho se era verdade que o mesmo tinha uma facilidade de decorar a escalações de times antigos. Notório botafoguense, Armando pediu para
Veríssimo escalar o Botafogo de alguma década distante. Veríssimo disse, “prefiro escalar o Internacionai de quarenta e poucos” – o único defeito do Veríssimo que eu saiba, é justamente torcer para esse time. O chato do Armando, que para ficar ainda mais chato, é daqueles que fica tocando no seu interlocutor toda vez que fala, insistiu e Veríssimo fincou pé. E não escalou o querido Botafogo. Essa foi uma das duas ou três vezes que eu torci por um colorado em toda a minha vida.

Mas voltemos a minha culpa. Estou aqui me remoendo em culpa, enquanto todos homenageiam “o mesmtre”. Sou um crápula, bandido, um insensível, um criminoso. E eis que, em uma dssas tantas homenagens ao falecido, alguém publica uma crônica do falecido após a vitória do Brasil sobre a Itália em 1970. E não é que o tal texto do Armando é de fino trato? Fui dar uma olhada em outros e o cara tem frases realmente brilhantes. “A bola é uma flor com cheiro de gol nos pés de Zico”. Baita frase. É um jeito lindo de se dizer uma verdade. Po, Armando, você não podia ser tímido e pouco falante como o Veríssimo, que você tanto encheu para que escalasse o seu Botafogo? Fosse assim não estaria me sentindo este crápula irrecuperável.


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