Um metro e sessenta e sete

O velório já durava algumas horas. A viúva, dona Lucinda, já não tinha mais forças nem para ouvir os sentimentos alheios. Toda aquela lamúria, a palavra pêsames, tudo já havia perdido o verdadeiro sentido. Pobre mulher. Uma morte tão repentina e o velório não amenizava em nada o seu sofrimento. Na verdade, velórios só servem para aumentá-los. Notando o seu estado deplorável, Camila, sua filha, tomou-a nos braços no intuito de levá-la para casa, onde tomaria um um banho relaxante e trocaria as roupas.

Ocupando o centro da capela estava o caixão aberdo do doutor Vicente, cujo corpo se encontrava na posição de praxe. Coroas de flores ladeavam o caixão. Eram duas. Ainda havia muita gente na capela quando chegou Felipe. Era o sobrinho preferido do falecido, uma espécie de terceiro filho – além de Camila, já mencionada, havia também Paulo. Felipe era o único filho da única irmã do doutor Vicente, Glória. O rapaz perdeu o pai quando tinha ainda 3 anos e passou a ter uma relação muito estreita com o tio. De certa maneira mais estreita que os próprios filhos do doutor Vicente.

O rapaz nutria um extremo interesse que pela atividade do tio, o direito. Desde pequeno o Felipe acompanhava o tio em suas idas a tribunais, fascinando-se com as imensas colunas, as salas amplas decoradas em madeira e toda a opulência característica destes prédios. Após atingir a adolescência, a fascinação de Felipe só fez crescer. O rapaz atirou-se de corpo e alma na leitura de espessos livros de direito Civil, Penal e Romano, muito antes de ingressar na faculdade. O tio incentivou o quanto pode a vocação do sobrinho e nasceu daí uma grande amizade. Os dois costumavam permanecer horas a fio na biblioteca do doutor, estudando e discutindo os grandes julgamentos da história.

Felipe se postou ao lado do caixão enquanto olhava para o tio tão querido. Lembrava que o falecido quando vivo sempre dizia que não morreria assim tão fácil. Que iria enganar a morte algumas vezes. E que tudo era um forte pressentimento. Dizia que a única tristeza era que a esposa iria antes dele. Mas o pressentimento do tio não era assim tão forte, pensava o rapaz. A morte o enganou e não havia mais nada a fazer a não ser orar pela alma do falecido. Mas suas orações foram subitamente interrompidas pelo insólito. Felipe jurou ver os olhos do tio, ainda fechados, se mexerem, exatamente como alguém faz quando está sonhando. O coração do jovem rapaz acelerou ao perceber a repetição do movimento. E então, como que acordando de um pesadelo, o defunto levanta de sopetão com um grito, permanecendo sentado no caixão.

Desmaios, corre-corre, espanto generalizado. O doutor Vicente ressucitara diane dos olhos de pelo menos trinta e poucas testemunhas. Ainda sentado no caixão, o ex-falecido encarou o sobrinho que estava quase catatônico.

– Felipe? O que você está fazendo aqui, meu filho

O doutor Vicente ainda não tinha a menor idéia do que estava se passando. Aos poucos foi se dando conta de onde estava.

– Mas o que eu estou fazendo aqui? – Pergunta o estupefato doutor Vicente.
– Tio? – Balbucia o sobrinho.
– Isso é um caixão! Um caixão! Eu estou dentro de um caixão! – Exalta-se o doutor.
– É. – responde o sobrinho com os olhos arregalados. – O senhor voltou. Tal qual Lázaro.

Muitos vieram em socorro do doutor Vicente, que na verdade sofria de catalepsia, fato descoberto ali, a duras penas, mas que, felizmente, teve o desfecho ainda no velório e não embaixo da terra.

Aos poucos tudo foi voltando ao normal dentro da capela. Tiraram o doutor de dentro do caixão e o puseram sentado numa das cadeiras da capela. Deram-lhe um copo de água. Ele perguntou pela esposa.

– Acho que ela já está a caminho com a Camila, pai – respondeu Paulo, o filho.
– Então ligue pra elas – preocupa-se o ex-falecido. – Seria bom alguém avisar a ela antes de me ver aqui sentado.

Seria mesmo. Afinal, não seria nada bom dona Lucinda e a filha encontrarem marido e pai ressucitado sem aviso prévio. Sabe-se la que consequências isso acarretaria. Tentaram o celular mas nada. Só dava caixa postal. Paulo foi para a porta do cemitério tentar encontrar as duas antes de chegarem a capela. O que ninguém contava é que, ao voltar para o cemitério, Camila e a mãe viessem por uma entrada alternativa. Mas foi o que elas fizeram. Mãe e filha cruzaram os corredores e, ao entrar na capela, dona Lucinda dá de cara com o caixão vazio. Ainda meio sem entender, ela vira um pouco a cabeça e encontra o doutor Vicente ali, vivíssimo, sentado e cercado por parentes e amigos. É demais para aquele coração cansado. Ela tem um ataque cardíaco fulminante e morre ali mesmo.

Dona Lucinda, que Deus a tenha, tinha exatamente o mesmo tamanho do doutor Vicente. E após todos os procedimentos de praxe, o corpo dela acabou ocupando o mesmo caixão onde antes estava o seu quase falecido marido. E Felipe passou a confiar cegamente nos pressentimentos do seu tio.


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