Presente de Natal

O garçon observava aquele homem sentado na mesa quatorze. Era sempre a mesma mesa, toda a quarta-feira já fazia três semanas. Antes disso, nunca o tinha visto. O homem olha o garçon de soslaio, ergue o copo de uísque vazio num pedido silencioso por mais uma dose. O garçon pega a garrafa, que usa como chapéu um medidor metálico, o balde de gelo e coloca tudo na bandeja. Vai até a mesa do homem solitário, coloca mais três pedras de gelo num copo baixo e serve o líquido que transborda do medidor por um ou dois segundos. Vira o medidor deixando cair todo o líquido no copo. Ouve apenas o estalar do gelo e o melancólico “obrigado” que vem de alguma parte funda do homem solitário da mesa quatorze.

Ele se chama Luiz Onofre. Executivo de uma grande multinacional. Ele olha fixamente para o neon do restaurante em frente ao bar onde está. As palavras “Ristorante Da Mama” tremeluzem em verde, branco e vermelho. Na rua, pessoas passam apressadas com pacotes e sacolas. Estamos perto do Natal, tudo funciona até mais tarde. Um Papai Noel toca o seu sino pedindo ajuda, uma sobra do natal dos afortunados para os desafortunados sem Natal. Na última vez que esteve no bar, na quarta anterior, esse Papai Noel abnegado estava no mesmo ponto. Lembra-se de ter deixado algumas moedas na caixa dele quando saiu do bar. Voltou as atenções para o restaurante. O filho da mãe estava lá dentro como em toda a quarta-feira. Havia seguido a rotina do desgraçado. Hoje, tudo ia terminar. Deu um longo gole no seu uísque, de olhos fechados. O líquido invadiu suas entranhas, como as lembranças tristes abrindo caminho pela mente.

A imagem do carro da esposa com as rodas viradas para o céu, o velório, a cremação, o fim inesperado e lancinante aberto e purgando no peito. A pergunta feita para si mesmo repetidas vezes: por que ela corria tanto? E, de repente, um filho adolescente que ele na verdade mal conhecia, porque tinha se dedicado à carreira como um faminto que finalemte encontra um generoso prato de comida pela frente. Quando quis preencher o abismo entre eles, ja era tarde. Não sabia como falar, o que falar, como agir. Não lembra do último abraço que tinha dado em Alexandre, mas lembra de todos os motivos que o levaram a faltar à maioria das festas de aniversário do filho. Foi a menos de cinquenta por cento das dezessete. Quem preencheu o vazio que a mãe deixou foi outra pessoa. Um traficangte conhecido como Chantal.

Era para Chantal que o filho de Luiz trabalhava quando morreu. Aliás, foi exatamente por trabalhar para ele que acabou morrendo. Vendia drogas na escola e começou a ganhar o seu próprio dinheiro. Orbitava o mundo do traficante. Cheio de mulheres fáceis, de dinheiro fácil, de carros fáceis, de fama fácil. Luiz perdeu fragorosamente o jogo para Chantal. Não conseguia encontrar uma porta pela qual pudesse passar pelo muro criado pelo filho justamente para mantê-lo afastado.

Mais um gole e a sua mente viaja para o dia em que olhava para o filho estendido no chão. Um tiro na boca, foi o que disseram os policiais. “Dizem que esse Chantal atira na boca de quem sabe muito.”, dizia o policial consternado e impotente. “O senhor fique tranquilo, pois vamos fazer de tudo pra pegar esse filho da puta que matou seu menino”.

Luiz sabe que o policial queria acreditar naquilo que acabara de dizer. Mas não havia provas, embora todos soubessem quem era o mandante, não havia muito o que fazer pelo lado oficial. Luiz passou a seguir o traficante. Queria saber se na rotina de Chantal haveria um momento de fraqueza, de descuido em que ele pudesse acabar com a vida de quem tirou a vida do filho. Acabou encontrando. Toda quarta-feita, Chantal jantava no “Ristorante da Mama”. Sozinho. Incógnito. Não entende como nunca aconteceu nada com ele nesse momento de descuido. Ele deveria ter pencas de inimigos. Talvez fosse protegido por algum deus dos bandidos. Sabe-se lá. Mas isso terminaria hoje.

Pediu a conta. Deixou a polpuda gorjeta de sempre. Passou pelo Papai Noel e deixou uma boa soma em sua caixa de coleta. Postou-se nos fundos do restaurante. Lá estava o carro do traficante. Não o que ele sempre usava, que era muito mais espalhafatoso. Um carro comum, sem graça, fácil de passar desapercebido. Pegou a pistola que conseguiu no mercado negro. O mesmo tipo e calibre que tirou a vida do filho. Quando Chantal saiu pela porta dos fundos, sozinho como de costume, Luiz ordenou.

– Parado aí, filho da puta.

O traficante levou um susto. Genuíno. Olhou nos olhos do seu algoz. Aqueles olhos não eram de um algoz, concluiu. Recupoerou a confiança e a arrogância.

– E quem é você?
– O cara que vai acabar com a tua raça.
– Bom, tem muita gente querendo acabar com a minha raça. Eu realmente dou muitos motivos. – Chantal ganha tempo porque sabe que quanto maior a demora para Luiz puxar o gatilho, maiores são as chances de desistência. – Qual o que eu dei a você?
– Você matou o meu filho.
– Eu matei o filho de muita gente.

Luiz comecava a fraquejar. Por mais raiva que sentisse daquele verme a sua frente, puxar o gatilho e acabar com uma vida, mesmo aquela vida, era algo assustador. Ele não iria conseguir.

– O Alexandre, seu filho da mãe.
– Ah, você deve ser o Luiz, como é mesmo? Onofre.
– Cala a boca.
– Ta com medo de ouvir o que você ja sabe? Que eu fui mais pai pra ele do que você?

Luiz estava com raiva. Com raiva porque o verme estava certo. Com raiva da mulher que adorava andar com carro em alta velocidade. Com raiva dele mesmo, que não tinha nem coragem de puxar o gatilho. Chantal sentiu isso e, sorrateira e vagarosamente, preparava-se para pegar a sua pistola. Iria “juntar pai e filho”, pensou na hora, com certo prazer. Seria fácil. Nesse momento tenso os dois ouviram uma risada muito familiar. E muito fora de propósito para aquele momento. Viraram-se para o ponto de onde vinha a risada. O Papai Noel que angariava fundos para os menos necessitados estava lá, parado, segurando uma pisgtola em cada mão, apontadas para o traficante. Desta vez Chantal percebeu que estava perdido. Os olhos por trás daquele barba falsa eram realmente frios.

– Não precisa fazer isso, Luiz – diz o Papai Noel. – Eu fui pago pra apagar esse lixo que matou seu filho.
– Como assim?
– Esse rapaz que parece todo poderoso também presta contas para alguém. Seu filho acabou testemunhando uma transação na qual esse aí iria ter um lucro maior do que o que era dvido a ele às custas de quem ele deve prestar contas. Soubemos, claro. Sempre sabemos. Agora baixe a arma, deixe comigo. Eu faço o serviço pra você. Considere um presente de Natal.

Luiz obedeceu. Saiu sem olhar pra trás. Ouviu as suplicas de Chantal e depois, uma salva de tiros. Não contou quantos. Iria saber o número exato lendo os jornais do dia seguinte


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