Morgado é mau humorado. As barbaridades que ele percebe e com as quais ninguém se incomoda o deixam nesse estado. Tem dias que ele acorda sem entender porque vive no mundo onde alguém é pago para dar opiniões. “Opinião eu, você, todo mundo tem. Já se perguntou porque a opinião de um jornalista é melhor que a sua? Por que a deles vale um bom salário e notoriedade e a sua não?” Morgado se pergunta muito. Por isso é tão mau humorado. E por isso ainda não casou.
Os que mais irritam o Morgado são os “luminares do futebol”. Para Morgado, o futebol “é matéria fácil. Esporte nacional, todo mundo entende. Então por que opinião de um sujeito tão douto quanto eu em assuntos que ocorrem dentro das quatro linhas vale mais que a minha? O geraldino não entende que o que um colunista escreve no jornal ou diz em mesa redonda é tão bom, ou ruim, quanto o que ele mesmo fala na mesa do bar.” Morgado se irrita, porque o geraldino da mesa do bar aceita ser inferior ao sujeito da mesa redonda como torcida que abandona o estádio ao ver o time da casa tomando o quinto gol sem ter feito nenhum aos trinta e cinco do segundo tempo.
Morgado é mau humorado, porque eles são todos engenheiros de time pronto. “E quando comentam sobre como escalariam as equipes? ‘Se colocar fulano aqui no lugar do cicrano, deslocar o beltrano para a direita a dinâmica de jogo melhora e o time flui. Se técnico não fosse tão teimoso o time estaria melhor na tabela.’ E seguem queimando o treinador, essa Joana D’Arc das casamatas, sem dó nem piedade. Contam com a ja conhecida amnésia nacional persistente, pois quando nada do que ele falou se confirma ninguém mais lembra. E se o treinador lembrar e cobrar é ‘porque não sabe receber críticas’”
Morgado perde mais o seu humor, porque eles têm a mais absoluta das certezas que “que entendem mais do riscado do que os que ralam no dia a dia, sujeitos a erros e acertos, porque, afinal, são seres humanos como eu, você e até o sabe tudo dos microfones e colunas” ele nnao pára e emenda. “Imagina se todo mundo fosse para o seu trabalho e no final do dia fosse obrigado a ouvir um pequeno julgamento sobre o sua atuação: ‘fulano cometeu muitos erros de digitação e o relatório ficou muito aquém do aceitável. Mas também, o fulano sai toda quarta para a happy hou. É por essas e outras que anda fazendo relatórios fracos ultimamente. Sem falar que abandona a mesa frequentemente pra tomar cafezinho.’ Já pensou no inferno que seria? Pois é, idiota sou eu, que penso”, conclui.
Morgado é mau humorado, porque “eles têm aquele olhar de superioridade e a empostação dos acadêmicos.Pra falar de futebol? E eles ainda dão nota. Não é demais? Vêem os jogadores como colegiais debilóides que correm atrás da bola. É três para o fulano que errou todos os passes, cinco para o cicrano que falhou na marcação e seguem distribuindo canetaços diretamente das salas refrescadas pelo ar condicionado das redações aos que suaram em bicas dentro do campo e têm o direito de acordar um ou outro dia com o pé esquerdo como qualqeur um de nós.”
Um dia, Morgado encontrou um desses comentaristas quando saía do restaurante. Ao ver o sujeito a mesa, comendo um espaguete a carbonara não teve dúvidas. Parou na frente dele e disparou:.”Sua crônica de ontem foi patética. Repetiu a frase “valorizar a posse de bola” oito vezes, disse no primeiro minuto do jogo que o técnico se enganou a escalar o fulano numa posição que rende menos e o fulano foi o melhor em campo. Pediu desculpas para o técnico no final? Não. Esqueceu o assunto. Quer saber, sua nota é um. E é porque eu estou muito generoso hoje.” E deixou o homem lá plantado com o garfo de espaguete a carbonara a meio caminho da boca.