Barulho na vizinhança

O fato aconteceu numa pequena ex-colônia espanhola. Foi- me contado por Miguel Muños, coveiro do cemitério de Regalos, um bairro chique da capital da agora república. Mas antes, é necessearia uma pequena introdução, apenas para entrarmos no contexto.

Desde que se conhece como nação independente da matriz espanhola, o país vinha sendo governado por ditaduras que mal duravam dois anos já que os ocupantes do Palácio Presidencial tanto assumiam o poder como o perdiam através de golpes de estado.

Essa iconstância no poder durou até 1952, quando assumiu o posto Carlos Rosa Perez, um caudilho com uma empatia incomum, um charme arrepbatador, que conquistou e uniu o povo. Ninguém ousou tirá-lo do poder. Enriqueceu a sua conta em paraísos fiscais, mas soube fazer isso sem arrogância e sempre lançou mão do populismo, coisa que os otros não faziam.

A única pessoa que rivalizava em empatia e charme com Carlos era a sua própria esposa, Guilhermina Perez. Se um já era forte, os dois unidos eram realmente imbatíveis. Formavam uma equipe em harminia perfeita, entrosada e carismática. Só uma fatalidade poderia arrancar Carlos do poder, o que acoteceu depois de seis anos de mandato, quando o bimotor que o trazia de uma cidade do norte do país onde inaugurou uma ponte acidentou-se. Guilhermina não acompanhou o marido nesta viagem porque, segundo fontes oficiais, iria ter com os pequenos necessitados do orfanato municipal.

O enterro do presidente Carlos foi um acontecimento quase tão grande quanto a coroação da rainha da Inglaterra. O povo chorou por semanas. Nos bastidores, discutia-se quem seria o substituto. Em nome da estabilidade das instituições, quem assumiu o poder foi a primeira dama Guilhermina. O povo faria tudo por ela e para ela. Teve ainda mais apelo popular do que o marido. Se Carlos era adorado, ela era venerada. Morreu de um ataque cardíaco dentro do Palácio do Governo, mas muitos não engolem até hoje a história de morte natural. Seu corpo descansa em um mausoléu no cemitério de Regalos, separado do mausoléu do marido. Segundo dizem, a família de Carlos nunca engoliu a primeira dama e ex-presidenta.

Desde então, seu maosoléu tem sido destino de peregrinos fiéis a sua “santa presidenta” e obviamente dos turistas que querem conhecer aquela que até tema de musical ja tinha se transformado. Discursos, grupos musicais entoando hinos em louvor a ela, eram comuns na frente da atual casa da presidenta. Dia após dia a rua onde fica o maosoléu de Guilhermina se enche de gente e de homanagens do seu amado povo.

O problema é justamente esse. Numa noite, quando o cemitério conta com a presença apenas do coveiro mor, o nosso amigo Muños, um punhado de gatos gordos e um ou outro ladrão de tumbas, deu-se o fato que passo a relatar. Um alvoroço fantasmagórico acontecia em frente ao maosoléu da caudilha. Os ocupantes dos maosoléus vizinhos não suportavam mais o barulho, a algazarra que se transformara a vizinhança por causa da peregrinação ao maosoléu de Guilhermina Perez.

– Desde que a senhora veio morar aqui este lugar tem sido um inferno – reclama um coronel do exércido que ocupava o maosoléu ao lado.
– Pessoas tocando cornetas, bumbos, discursos – completa uma senhora da sociedade que morrera dois anos antes da grande dama. – Não aguentamos mais tanta baderna.
– A senhora transformou uma vizinhança tranquila e pacífica em um bairro boêmio – interveio um banqueiro do maosoléu da frente. – Essa gente não tem mais o que fazer além de vir nos incomodar incluindo sábados, domingos e feriados?
– O que posso fazer, meus caros? – Pergunta Guilhermina, em tom debochado.- O barulho é irritange, sim, Mas é o ônus do compromisso que sempre tive com eles e com o país. Por exemplo, eu nunca os torturei inimigos, não é coronel?
– Compromisso para com o país e o povo? – Ironizou uma herdeira que ocupava o terceiro maosoléu a direita do de Guilhemina. – Sabemos muito bem que a senhora não foi naquela inauguração da ponte que levou seu marido porque estava com vontade de comprar sapatos.
– E só passou no orfanato para disfarçar – delatou a senhora da sociedade – ja que ele ficava no caminho da sua loja de calçados preferida.
– Bom, pelo menos respeitava as pessoas e não as distratava como a senhora fazia com as suas empregadas, filhas e marido, sua megera. Quantas vezes tive que intervir a seu favor para que saísse livre de seus atos virulentos?
– Em troca de um guarda-roupa novo a cada estação, não é mesmo?
– O que vou fazer se tenho mais talento com a dissimulação do que a senhora?
– O fato é que não podemos mais suportar essa gentalha “homenageando” a senhora em nosso momento de descanso – intervém o banqueiro. – Precisamos dar um basta nessas homenagens diárias e de mau gosto.
– Senhor Monteiro! – Debocha a ex-presidenta. – Ouço ciúmes em sua voz? Sinto que o verdadeiro motivo da sua irritação não é o barulho que os prergrinos fazem, mas o fato de o senhor ser um explorador do povo com seus jutos exorbitantes.
– Juros que a senhora sempre fez que não viu além de usufruir de uma boa porcentagem.
– O senhor sempre soube que no nosso acordo eu sairia mais, digamos, endeusada.

A troca de insultos e acusações seguiu-se por horas. Os vizinhos de maosoléus, ricos, poderosos e aliados em vida, acusando-se de explorar os mais necessitados. Os mesmos que agora iam diariamente ao cemitério render homenagens barulhentas à ex-presidenta Guilhermina e que eram a razão daquela bizarra e fantasmagórica reunião.

O coveiro, Miguel Muños, assistia a tudo escondido em uma lápide morrendo de rir. Para ele, aquela era uma quadrilha que recebia o seu merecido castigo após terem deixado o mundo dos vivos. Nunca iam descansar em paz, por causa da peregrinação constante ao maosoléu da ex-heroína do povo. Naquele momento, Muños concluiu que Deus tinha um senso de humor que as vezes podia ser diabólico.


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