Para os verdadeiros amigos do Fidélis, a notícia de sua separação não chegou a surpreender. Após dez anos, o casamento ruíra por motivos que aqui não cabe mencionar até porque seria uma verdadeira chatice. O fato é que as coisas não iam bem, pelo menos no último ano e meio entre ele e Alice. Mesmo sem traumas aparentes, toda a separação é triste. Dez anos que se vão, deixando lembranças nos móveis comprados em conjunto, no cheiro impregnado nos lençóis e tudo mais. E como o Fidélis acabou ficando com o apartamento, resolveu seguir os conselhos de um profissional especializado no assunto, ou seja, separações. E é aí que começa o fato curioso.
Fidélis queria tornar a separação o menos traumática possível, por isso procurou o tal profissional. Fidélis saiu da consulta convencido a tomar algumas atitudes que seriam de grande ajuda para que ele pudesse suportar os primeiros momentos. O “tratamento” se apoiava em pressupostos simples. Um deles era: livre-se de tudo o que representa lembrança de momentos felizes. Fidélis seguiu à risca. Repintou o apartamento, mudou móveis de lugar – em alguns casos comprou novos – pôs fora todas as fotos de viagens a dois, presenteou a mãe com as fotos do casamento, pôs fora os cds que representavam algo entre ele e Alice, enfim, qualquer objeto que lembrasse o casamento deveria ser, e foi, deletado.
O outro pressuposto era: agora você ocupa a cama sozinho, fato que pode causar uma profunda depressão e consequente insônia. Uma cama que antes era divida com amor e afagos tornava-se insuportavelmente extensa. A área ganha na hora de dormir deveria ser preenchida por travesseiros. E assim fez o Fidélis. Toda a noite ia dormir com seus novos companheiros.
Os primeiros dias de traramento deram resultado. Fidélis estava sentia-se muito bem apesar da recente solidão. Realmente não vinha experimentando arrependimentos, nem lembranças avassaladoras de bons momentos. Tudo corria na maior das normalidades. Até o dia, ou melhor, a noite em que Fidélis se deu conta de uma nova fase em sua vida. Acordou agarrado a um travesseiro sentindo por ele uma enorme excitação. Tomado pelo tesão, manteve relações sexuais com o travesseiro que aceitou tudo passivamente.
O tempo foi passando e as atenções de Fidélis para com o seu novo amor foram aumentando e ganhando novos contornos. Em princípio ele manteve tudo em casa. Durante o dia saía para comprar novas fronhas. Chegou ao requinte de comprar fronhas de seda, que deixavam o seu travesseiro mais excitante e sensual. Fidélis estava perdidamente apaixonado pelas formas arredondadas, o encaixe anatômico e a total submissão de seu novo amor aos seus caprichos. O travesseiro dava tudo e simplesmente não pedia nada.
Arrebatado de paixão, Fidélis passou a passear com o travesseiro, assumindo a sua relação em público. Com o travesseiro ele frequentava parques, restaurantes e até cinemas. Certa vez, em uma lanchonete, enquanto se dividia entre afagos no travesseiro e colheradas de um delicioso sunday, não se conteve ao perceber que dois homens olhavam de uma mesa próxima a cena insólita. Levantou-se e foi tiar satisfações.
Não têm vergonha, não? – Bradou. – Dando bandeira para um travesseiro acompanhado?
Obviamente que além dos dois homens na mesa, a lanchonete inteira estava olhando para aquela cena de amor completamente for a de qualquer normalidade. Os dois permaneceram imóveis, enquanto ouviam o pito cheio de ciúmes passado pelo Fidélis, temerosos de que ele começasse a babar e acabasse mordendo os dois ou algo sememelhante.
Os amigos estavam todos muito preocupados com a situação do pobre Fidélis. Em toda a reunião, biribinha, churrascada, lá estava o Fidélis com o seu travesseiro em tórridas cenas de amor. Alice até se prontificou a ir ao apartamento que antes ocupara para tentar fazer Fidélis voltar a realidade, mas foi escurraçada aos gritos de “ciumenta, ciumenta!”. Até que um dia, a campainha do apartamento do Célio, seu melhor amigo, soou. Parado na porta, o Fidélis. E desta vez, sem o travesseiro.
– Tenho que te dizer algo – fala o Fidélis sério. – Esse negócio com o travesseiro…
– Até que enfim, Fidélis! Já era hora – regozija-se o Célio.
– Imagine, eu e um travesseiro – debocha o Fidélis. – Bem que vocês tentaram me abrir os olhos.
– Você não imagina o quanto estávamos preocupados, bom amigo. Já estávamos achando que era caso de internação.
Eu e um travesseiro – continua. – Eu, Fidélis, me ralacionando com outro homem. Pode isso?
Como é?
Felizmente acabou – continua indiferente. – Me apaixonei por uma almofada. Uma linda e fêmea almofada.
– Almofada?! – Espanta-se o amigo – Você enlouqueceu, Fidélis?
– E o amor não é uma loucura? De qualquer modo, a almofada já está vivendo comigo. Voltei a ser um homem completo. Um homem completo é o que eu sou.