Não da pra dizer que o Moreira quase caiu pra trás porque na hora ele estava confortavelmente sentado na sua poltrona predileta lendo o jornal. Mas o coração disparou quando teve seu nome chamado pelo seu melhor amigo, o Zeca, que estva parado bem na sua frente. O que o Zeca estava fazendo em sua casa num sábado as onze horas da manhã? Como ele teria entrado sem que o Ricota, o pastar alemão da casa que odiava o Zeca, emitisse latido sequer? E o mais intrigandte, porque o Zeca estava completamente nu?
– Moreira, você precisa me ajudar?
– Meu Deus do céu! Você foi assaltado?
– Antes fosse, Moreira, antes fosse. É muito pior do que isso.
– O que pode ser pior do que ser assaltado e levarem as suas roupas?
– Eu tive um infarto, Moreira. To morto. Morto mas ainda não enterrado.
– Calma, Zeca, muita calma.
Moreira olhava para o amigo completamente desesperado a sua frente. Mas a situação parecida óbvia. Zeca saiu pra dar uma corridinha no parque em que eles costumavam frequentar, gastarem suas calorias e contemplarem algumas bundinhas firmes e peitos rijos balouçantes correndo pra la e pra cá com seus fones de ouvido, quando foi abordado por dois ou mais assaltantes que, de arma em punho, o arrastaram para um ponto mais ermo e o livraram de seus tênis, meias, calção e camisetas de marca famosa. Provavelmente levaram também o seu mp3. Zeca devia estar tão chocado que não falava coisa com coisa.
– Eu não fui assaltado, Moreira, ja falei. Tive um infarto.
– Como você sabe que eu acho que foi um assalto. Eu nem falei nada, só pensei.
– Eu sei la? Acho que fantasmas podem ler pensamentos.
Moreira levantou e foi colocar a mão nas costas do amigo para levá-lo até o quarto onde iria empresatar algumas roupas para tirá-lo daquela situação vexatória. Por sorte, a sua mulher não estava. Tinha saído justamente com a mulher do Zeca e com as meninas. Só que algo realmente esquisito aconeceu naquele instante: o braço do Moreira simplesmente atravessou o corpo do Zeca como se esse não estivesse ali. Como se ese fosse uma projeção holográfica. Soltou um grito de pavor.
– Eu não te falei? Eu morri. Sou um fantasma fresquino da Silva. Estagiando na nova carreira, E eu preciso da sua ajuda.
– Meu Deus do céu! Você é uma assombração.
– Que assombração o que? Eu saí do corpo, mas não fui ainda pra onde tinha que ir porque preciso resolver esse problema. E só você pode me ajudar.
– Que problema?
– Primeiro, calma. Seu coração ta disparado. Vai que você também te um infarto. Vamos na cozinha, toima uma água e eu te explico.
– Você teve um infarto?
– Vamos pra cozinha, Moreira.
Na cozinha, o Zeca explicava o que tinha acontecido para um incrédulo Moreira que virava copos e mais copos de água.
– Pois eu estava sozinho em casa, Zeca. A Lucila e a Isabel sairam com a sua mulher e a sua filha, como você bem sabe. Estão juntas gastando no shopping. Vai pagar a conta com o dinheiro do seguro de vida, coitada. Enfim, acordei, tomei meu banho e fiquei peladão, andando pela casa. Fui até a cozinha, tomei meu café bem calmo. De repente lembrei que um colega meu do escritório me passou um site de sacanagem e disse que era o melhor que ele ja tinha entrado. Fui conferir, Zeca. Te digo que era mesmo uma maravilha. O tesão foi tomando conta de mim de um jeito que eu não consegui me controlar. Levei o laptop pra cama e, bom sabe como é né? Fui fazer justiça com as próprias mãos.
– Eu não sei se quero ouvir o resto.
– Você quer sim, Moreira. Presta atenção. Bati uma longa e inspirada punheta olhando aquele site. Ia e voltava. Quase gozava e parava. Uma loucura. Até que deixei rolar e quando gozei aconteceu, Moreira. Morri com o pinto na mão, todo lambuzado e o computador ta la, do meu lado, naquele site.
– Mas o que você quer que eu faça, Zeca. Tentar te ressucitar? Repiração boca a boca?
– Que nada, Zeca. Isso ja não adianta. Ja fui desta pra melhor. Quer dizer, se é melhor ainda não sei, mas enfim, por aqui não fico por muito tempo. O problema é essa situação constrangedora em que me encontro la em casa. Você precisa ir lá limpar a cena do crime.
– O que?
– Pô, você é meu amigo ou não é? Imagina a Lucial e a Isabelzinha chegando lá e me vendo naquela situação.
– Você pirou, Zeca. Você pirou.
– Eu morri batendo punheta em casa e to nu em cima da cama totalmente lambuzado com um computador ao lado exibindo um site de sacanagem, Zeca. E você é o meu melhor amigo.
– Não dá, Zeca. Não dá.
– Olha aqui, ou você faz isso ou eu te assombro pro resto da vida. Eu vou aparecer peladão assim quando você estiver jantando em familia, nas suas reuniões de negócio.
– Você vai fazer isso com o seu melhor amigo?
– Eu é que te pergunto. Na hora em que eu mais preciso da nossa amizade você vira as costas pra mim?
Nesse exato momento, o telefone toca. Os dois se olham. Suspense. Será que já sabem? Será que a mulher do Zeca ligando num choro que mistura tristeza e raiva pra dar a notícia e pedir ajuda?
– Alô? – responde Moreira.
– ….
– O que? – Apavora-se.
– …
– Ja estão saindo?
– …
– Beijo.
Moreira virou-se para o Zeca, mais branco que o próprio Zeca ali na sua fente.
– Ta bom, Zeca. Eu vou resolver o seu problema. Que agora é nosso.
– Quem era?
– A Valéria. Vão sair daqui a pouco do shopping. O carro da Lucila pifou e você não está atendendo o telefone. Elas vão pra sua casa ajudar a sua com as compras e vão almoçar por lá enquanto você vai resolver o problema do carro. É pra eu ir gtambém e levar o pudim de leite que está na geladeira.
– Quer dizer que agora você vai fazer o que eu te pedi?
– Vou. Não posso sumeter a minha mulher e a minha filha a esta cena horrorosa.
– Então é assim, né? Agora mudou de figura. Pimenta nos olhos dos outos, né Moreira?
Disse o Zeca antes de desaparecer pra sempre.