O primeiro tiro

A pistola ainda fumegava em sua mão direita. Ele estava paralisado, entregue a um torpor que conquistou o seu corpo. Um segundo atrás ele era um ser humano sem máculas, tinha apenas pequenos pecados. Quem não os tinha? Mas agora não. Agora ele acabara de ultrapassar a fronteira que delimita o pequeno pecado de um daqueles enormes. O estampido do tiro ecoando na cabeça. O cheiro de pólvora queimada entrando pelas narinas. O corpo estirado a sua frente. O sangue se esvaindo pelo furo da bala transofrmando-se em uma mancha crescente na camisa branca. Os olhos arregalados, denunciando a incredulidade apavorada do que estava por vir. A partir daquele segundo, daquele átimo que teve como música o estampido da pistola que conseguiu no mercado negro, ele era um assassino. Cessara a existência de um ser humano tão fácilmente como quem come um bombom.

Lembrou-se da primeira vez que tinha ido para a cama com uma puta, fazia muitos anos. Ela era uma mulher maravilhosa. A melhor das mulheres do universo. Esse sim um motivo justificável para ir pra cama. Estava mergulhado em excitação. Foder com ela era tudo que valia a sua existência naquele momento. Seus sentidos, seus líquidos, seu metabolismo, a história da sua vida, tudo tinha o mesmo destino: aquela bunda perfeita, aqueles peitos indizíveis, aquele sorriso maroto. Ansiava, arfava, não via a hora. E depois do gozo, tudo virou uma grande e enorme merda. Estava farto, enojado e não via sentido naquele gemido falso, tão falso quanto o louro dos cabelos daquela mulher deitada ao seu lado. O orgasmo daquela noite e o tiro que acabara de desferir eram a mesma coisa. Um átimo e tudo fica diferente. Tudo ficava fora de sintonia, fora da razão. Assim como aquela mulher ao seu lado não era mais desejável, o escroto caído inerte a sua frente não parecia mais tão escroto. Aliás, não era. Era apenas um sujeito competitivo do escritório. Doente, quem sabe? Louco por promoções e cargos cujo caminho vivia cruzando com o seu. Mas não escroto. O escroto estava em pé com uma pistola na mão achando que ia resolver o problema de uma maneira bem simples. Um escroto ainda mais doente do que aquele prostrado, sem vida.

Subitamente, a porta abriu. Ele nem viu quem entrou. Virou-se e atirou de novo. Num reflexo. Nem uma réstia de razão, apenas uma atávica auto-defesa. E agora tinha dois pecados dos grandes. E então, decidiu que ia ser um pecador enorme, épico. Ainda tinha muita gente no escritório naquela noite.


Leave a comment