Este curioso fato que passo a contar agora se passou na Inglaterra. É a história de um inglês, obiamente. Um sujeito chamado Geofrey Sheridan. Ele estava sentado em frente ao balcão de um dos muitos pubs de Londres. Bebia muito. É uma característica um tanto normal entre nós, britânicos em geral. Sim, sou igualmente britânico, mas esse detalhe é irrelevane. O que importa é que o sujeito em questão estava bebendo demais, inclusive para os nossos padrões. Nosso amigo Geofrey era um inglês bem comum. Nariz enorme, cabelo loiro repleto de ondulações como a superfície do Lago Ness em dia de muito vento, dentes um tanto mal cuidados, costeletas generosas, corpo magro e alto metido em um terno sisudo.
Geofrey estava bebendo para esquecer sua profunda decepção. Profunda e fresca, já que a causa havia sido recente. Pouco antes de estar entornando copos e mais copos ali na minha frente, nosso pobre Geofrey voltava para a sua casa, vindo do trabalho, um pouco mais cedo. O motivo era uma insistente dor de cabeça que não o deixava se concentrar em seus afazeres. Estacionou o carro, subiu as escadas do prédio até chegar ao terceiro andar. Parou em frente a porta do apartamento 31 e gastou um certo tempo procurando a chave correta no molho em sua mão ditreita. Destrancou a porta e entrou. Parou dois passos depois. Na verdade foi obrigado a parar. Tentava inutilmente não acreditar no que via. Ali, sobre o sofá azul da sala, estavam a mulher e o seu melhor amigo, Philip. Não apenas isso. A sua mulher usava botas de cano longo de saltos altos e finos enquanto praticava libidinosos exercícios sexuais com uma desenvoltura de dar inveja a qualquer estrela pornô. E ainda por cima, era ela que tomava toda a iniciativa.
Aquela cena inisitia em permanecer em sua cabeça por mais cervejas que bebesse. Geofrey bem que tentou dividir suas fantasias sexuais, seus fetiches com a mulher. Tentativas sempre infrutíferas. Deus sabe como os ingleses são reservados para tais assuntos. Abrir-se desse jeito, mesmo que para sua esposa, foi um um esforco desgastante para o nosso amigo Geofrey. Ele conseguira, mas fora imediatamente tolhido pela esposa, pretensamente puritana demais para o assunto. A mesma mulher que estava sobre o tal sofá azul, que ela comprou a despeito dele detestar aquela cor. E usando aquelas botas brilhantes de cano longo e saltos altos fazendo piruetas com seu melhor amigo Philip.
O que Geofrey sentia naquele momento era uma imensa vontade de desaparecer do mundo. Queria morrer. Morrer era o que mais desejava e ficava repetindo isso incontáveis vezes.”Eu quero morrer! Morrer seria um ótimo, um verdadeiro presente”, lamuriava-se. “Minha mulher usando botas de salto alto com meu melhor amigo naquele horrendo sofá azul!”, repetia entre lágrimas e generosos goles.
Como fiquei sabendo dessa trajédia? Era eu quem estava ao lado dele naquele balcão no pub. Eu, um ilustre desconhecido, tornei-me o depositário de sua angústia, sua dor. Era o amigo forjado pelo acaso e pela grande quantidade de álcool que viajava por suas veias.
E você deve estar se perguntando o que esta história tem demais. De fato, a história seria muito comum, não fosse justamente pelo fato do pobre Geofrey ter contado tudo para mim. E principalmente por ter expressado a sua imensa vontade de morrer com tanta veemência. Porque eu estava lá justamente com um fim específico. Tinha instalado uma bomba no banheiro com poder para mandar aquele pub inteiro pelos ares exatamente as 21 horas, horário em que o lugar atingia o maior movimento. Exatamente como o pessoal IRA tinha me requisitado e me remunerado generosamente para fazer.
Cinco minutos antes das 21 horas saí do lugar e deixei Geofrey lá dentro. Atravessei a rua e me sentei em um dos bancos do parque que ficava em frente ao pub para assistir a meu trabalho em curso. O lugar explodiu exatamente na hora marcada. Naquele momento pensei em Geofrey. Eu era o responsável pelo seu desejo ter sido realizado. Ele devia estar me agradecendo la do além. Fiquei ali sentado ainda um bom tempo, assistindo o movimento das ambulâncias, da policia, da imprensa, a confusão toda. E enquanto isso, pensei em fazer uma visitinha à viúva na semana seguinte. Aquelas botas de cano longo e os tais exercícios sexuais me deixaram bem excitado.