E tem início o final de semana. Dois dias repletos de missões a serem cumpridas por homens corajosos e decididos. Jardins a se conservar, vazamentos para serem debelados, prateleiras por se construir, cortinas a se pendurar, enfim, uma infinidade de incursões com o intuito de conquistar a perfeição em todos os cantos e recantos do lar, a cargo que um exército de homens corajosos e cheios de habilidades no manejo de ferramentas dos mais variados tipos e funções.
A loja de ferragens está repleta no sábado pela manhã. É lá que este heróico contingente adquire suas armas e munição para suas batalhas. São homens decididos, prontos para o cumprimento do dever, ávidos por pregos, parafusos, trilhos, vernizes, tintas, brocas, pincéis para completar o seu arsenal que será usado nesta guerra santa contra o desleixo e o estrago e a imperfeição. Material este que é vendido aos borbotões, fazendo a alegria do proprietário.
Mas havia algo mais acontecendo no referido estabelecimento comercial, chamando a atenção de um grupo de curiosos que só fazia aumentar. Eles cercam dois homens que estão no meio de uma ferrenha discussão. Um se chama Ovídio e o outro Manuel. Tudo começou quando Ovídio mostrou a mão esquerda para Manuel. Com os dedos bem separados, ele aponta com o indicador da outra mão para uma escoriação entre o indicador e o polegar.
– Chave de fenda – diz orgulhoso. – Estava colocando uma prateleira na cozinha quando ela escapou e atingiu com toda força bem aqui.
Manuel, com um desdém impressionante, dá de ombros e tira o sapato direito e a meia. Aponta o dedão do pé, que ostenta uma enorme mancha preta, e diz com mais orgulho do que o outro.
– Paralelepípedo. Chutei uma pilha deles quando estava trabalhando naquele caminho que eu tenho no meu jardim. Perto disso este seu ferimento é coisa que só viado reclama.
Após terminar, ele recoloca a meia e o sapato e olha, desafiador, para Ovídio. Só uma sobrancelha levantada. Sentindo-se fustigado, Ovídio não perdeu tempo. Ergueu os cabelos da sua escassa franja revelando uma marca vermelha de mais ou menos três centímetros.
– Martelo – falou com orgulho. – Soltou do cabo quando eu pregava uma prateleira. Caiu bem na minha cabeça. Rendeu cinco pontos.
À volta dos dois homens, o grupo de curiosos continuava aumentando consideravelmente. Todos mostrando em uníssono o seu espanto a cada ferimento revelado. Já havia até um completo sistema de apostas estabelecido entre os observadores. Não querendo dar a última palavra ao outro, Manuel mostra o dedo indicador da mão direita. Nota-se a falta de um pequeno pedaço no mesmo.
– Serrote – diz, cheio de si. – Jorrou uma sangueira danada.
Ovídio nem deixou o outro terminar e já foi arregaçando a manga do braço esquerdo. O que todos ali testemunham é uma cicatriz enorme no antebraço.
– Facão – falou com um sorriso vitorioso. – Aconteceu quando eu desmatava o terreno que fica ao lado da minha casa. Isso sim foi uma sangueira danada.
Manuel ficou uma fera. Imitando o outro, arregaçou a manga do braço esquerdo e mostrou uma horrível marca de queimadura também no antebraço.
– Solda. Aconteceu quando eu consertava o aparelho de som do meu filho. – Abre um sorrido – Olha o buraco enorme que ficou aqui.
Como antes, Ovídio nem deixou o outro terminar e já foi levantando a calça mostrando uma funda marca na canela esquerda.
– Enxada. Bati com toda a força na canela quando estava reformando o meu jardim. – E com um sorriso ainda maior do que o outro. – Apareceu até o osso.
E assim, aqueles bravos homens continuaram competindo para ver quem tinha o pior ferimento adquirido em tantas árduas batalhas caseiras nos finais de semana. O fato é que ninguém chegou a uma conclusão. A não ser a de que aqueles dois eram muito, mas muito desastrados.