Água mineral, por favor

Foi uma festa daquelas em que você sabe como entrou mas não tem a mínima idéia de como saiu. Quando tomei consciência de mim, tudo ainda estava envolvido em breu. O que não surpreende se considerarmos o fato de meus olhos ainda estarem fechados. Havia uma encarniçada luta dentro de mim. De um lado, uma latejante dor de cabeça – consequência de doses cavalares de uísque e sabe-se mais lá o que – forçava-me a permanecer com os olhos fechados, separado de qualquer fonte de iluminação por mais tênue que fosse. Do outro, uma curiosidade quase incontrolável, provocada pelo fato de estar deitado em uma cama a qual não sabia a quem pertencia, tentava me convencer do contrário. Mas os ouvidos a gente não controla. Os ouvidos a gente só tapa se colocar os dedos. E o que os meus ouvidos contavam é que lá fora havia uma ventania danada, daquelas uivantes, de fazer bater janela fechada.

Curiosidade versus dor de cabeça. A segunda vencia por curta margem. Permaneci imóvel escondido do mundo atrás de minhas pálpebras. Pus-me a lembrar os fatos da festa na noite anterior. Deixei as imagens fluirem livres na mente. Na primeira delas eu ainda estou em casa, antes da festa, dando a última olhada no espelho, procurando alguma fonte de insatisfação na minha roupa. Este quadro se descola da minha atenção, voando para algum canto da mente, como uma folha de papel levada pelo vento, provavelmente o vento que eu ouça vindo la de fora. Agora já me vejo em meio ao burburinho de um salão enfumaçado e a confusão das vozes abafadas por uma música que mais parecia o barulho da obra do lado da minha casa. Não se faz mais música para dançar como antes. Depois, uma sucessão de copos de uísque sendo servidos nas mais diferentes partes do salão se sucedem como numa rapidez estonteante. Até que aparece ela. Um rosto lindo, emoldurado por cabelos castanhos claros que iam até a altura do queixo. Feições delicadas, lisas e claras. A medida em que a minha visão vai explorando lentamente o que vem abaixo do rosto, só fica melhor. O sorriso que vinha daquele rosto era uma brisa morna. Atingindo o meu rosto em cheio. A partir daí, um borrão passa a tomar conta de tudo, como se a imagens misturadas começassem a se esvair por um ralo imaginário. A escuridão volta.

Ainda estou sem me movimentar enquanto o vento lá fora continua sua lúgubre cantoria. Um outro sentido passa a chamar a minha atenção. É o aroma delicioso de café recém passado. Começo a estalar a boca, que está tomada por uma saliva tão espessa como mingau de Maizena com gosto de pilha. Resolvo mexer as pernas e os braços vagarosamente. Sinto-me o Homem de Lata enferrujado. Tenho a intenção de me espreguiçar e abrir os olhos ao mesmo tempo. É o que faço louco para saber onde passei o resto da noite. Começo a me espreguiçar e abro os olhos lentamente. Uma imagem se forma aos poucos na minha frente. Parece um rosto. É um rosto. Aos poucos vai entrando em foco. E quando entra, o meu coração dispara. É ela. Aquele mesmo rosto com o sorriso de brisa morna que há pouco havia aparecido nas minhas lembranças. Ela está sorrindo para mim, vestindo apenas uma camisa. A minha camisa. Os lindos seios aparecem sob a camiseta umedecida pelos cabelos, que estão molhados e lindamente desgrenhados. Nas mãos, tem uma bandeija com café torradas, geléia.

– Depois de ontem você merece- diz com voz meiga.

Olhava para ela tomado de desespero. Era óbvio que eu estava em seu quarto. Era clara a satisfação em seu rosto. Era certo que tiveramos uma noite e tanto. E era definitivo que eu não lembrava de absolutamente de nada. Olhando para ela, naquele segundo, tentava lembrar. Tentava achar naquele quarto uma referência que disparasse a lembrança da noite de sexo com aquela maravilhosa mulher que estava a me trazer café na cama. Tentativa infrutífera. Se aquela noite fosse assunto de alguma prova eu tiraria um rotundo zero. Era como se não tivesse havido nada. Era como se algumas das horas mais divinas de minha vida tivessem sido roubadas de mim. Como se a sensação da conquista tivesse sido pilhada de minha mente após um ataque de hunos. Tivemos mais momentos, é verdade. Mas o especial, o primeiro, este está em algum lugar irrecuperável. É por isso que agora eu só bebo água mineral. Com gás.


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