Missa de sétimo dia

O Astrogildo não gostava de igreja. Na verdade, tinha verdadeiro horror a tudo o que se relacionasse com os dogmas da fé católica. Era da opinião de que os padres eram um bando de cínicos que enchiam a barriga com boas carnes, boas massas, bons vinhos, tudo a custa da boa vontade dos incautos fiéis. Ele costumava afirmar esta aversão originou-se em sua infância, quando a sua avó, uma tremenda carola, que rezava toda noite o terço em latim, costumava levá-lo a tira-colo nas missas dominicais. Tinha que acordar cedo, para um domingo, a fim de estar às dez horas da manhã na igreja. Uma tortura que durou anos a fio até o dia em que a velha foi encontrar o criador pessoalmente. “Provavelmente a primeira coisa que Ele perguntou a ela quando chegou lá em cima foi: Por que latim, minha senhora?” Astrogildo costumava repetir. Desde então, falar em igreja causava-lhe urticárias. Quando aparecia uma cerimônia, daquelas infaltáveis, era um suplício para a pobre dona Marta tentar convencie-lo.

– Astrô, você tem que ir. – suplica.
– Marta, você tem certeza que a minha presença na igreja é indispensável?
– É o nosso casamento, Astrogildo.

E casaram com o Astrogildo se coçando durante a cerimônia inteira. E a vida seguiu com seus batizados, casamentos e missas de sétimo dia que ele teve que aturar heroicamente, se bem que ele nunca entrava e nem sentava nos bancos da igreja. Sempre ficava lá atrás, bem perto da porta, em pé, criticando tudo o que acontecia durante o rito, às vezes com a voz um tom acima do que devia.

– Pronto, Lá vem a cestinha. Esses padrecos tem muita cara de pau..
– O que foi que o senhor disse?
– Ah, nada freira. Só estava orando.

A frase mais esperada pelo Astrogildo era o “vão em paz e que o senhor voz acompanhe”, a única coisa dita por um padre que ele obedecia sem questionar nem pestanejar. Saía correndo e entrava no carro para esperar por dona Marta, encarregada de cumprir a missão diplomática, que consistia em dar parabéns aos noivos, quando casamento, aos pais (inclusive dos próprios netos) quando batizado ou então prestar consolo aos familiares em caso de missa de sétimo dia. Quando dona Marta chegava, ele começava com a implicância.

– Pensa que eu não vi?
– Viu o que, Astrô.
– Você depositou dinheiro naquela famigerada cestinha.
– Ai, Astrô. Foi só um real.
– Um real daqui, outro dali…tudo pro Papa. O Papa tudo.

Apesar de não gostar de igreja o Astrogildo não tinha nada contra Cristo em si. “Na verdade”, ele dizia, “no dia em que nós nos encontrarmos, tenho certeza de que ele vai concordar comigo sobre essa corja de batina ganhando dinheiro as custas dele.” Pois o Astrogildo acabou tendo esta oportunidade pouco tempo depois. Um dia o Astrogildo simplesmente não acordou. Estava com 76 anos. Dona Marta ficou arrasada, pois apesar da ranzinice dele com relação às coisas da igreja, ele era um bom marido, bom pai, enfim, ela o amava muito. E como é costume quando um ente tão querido morre, ela acabou marcando uma missa de sétimo dia em memória do marido, não se dando conta de que ele provavelmente não aprovaria a idéia. Na véspera, um pouco antes de ir para a cama, a dona Marta sentiu uma coisa estranha, um calafrio. E quando entrou no quarto lá estava o fantasma do marido. Sentado na cama, com aquela cara de quem ia reclamar com ela. Ela não sentiu medo. Ela simplesmente aceitou a aparição do marido. Ficou até feliz.

– Marta você mandou rezar missa de sétimo dia?
– Não começa, Astrô. Até aí do outro lado você continua com essa mania?
– Isso não é mania, é convicção.Você vai, né?
– Sei não.
– Você não me faz essa desfeita. Aliás, não se faça essa desfeita.

E na outra manhã a dona Marta estava na primeira fila, bem perto do altar. E quando a missa começou ela deu uma olhadinha para trás, em direção a porta. E lá estava o fantasma do Astrogildo. No lugar de sempre. Ela ficou feliz, felicíssima. Nem percebeu que ele estava fazendo um sinal pra que ela não colocasse um centavo sequer naquela famigerada cestinha.


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