O Cunha é uma daquelas pessoas ótimas de se conversar. Constantemente bem disposto e falante, nada o tirava do sério. Quer dizer, quase nada. Há uma coisa que o atormentava. Uma coisa pesando dez quilos, peludo, olhos azuis que atende pelo nome de Deco. É o gato de estimação do Cunha e da Dora, esposa dele. Só dela, segundo o Cunha, que sofre de um ciúme exagerado em relação ao bichano. É verdade que de vez em quando a Dora exagera nos cuidados com o gato. Mas não justifica.
Os amigos do Cunha, sabendo dos sentimentos que ele tem pelo felino, atiçam-no sempre que possível, o que é extremamente divertido. No happy hour, quando as garrafas de cerveja se acumulam sobre a mesa e as línguas perderam há muito a destreza dos movimentos, alguém vira para o Cunha e faz a pergunta fatídica.
– E aí, o Cunha, como vai o gato?
– Não me fale neste merdinha – reponde com expressão contrairada. – Ontem cheguei em casa e a Dora estava na cozinha, preparando algo. Eu cheguei por trás dela, cheio de carinho e quartas intensões. Fui abraçando e beijando aquele pescoço a mostra. Adoro pescoço a mostra. Nos pegariamos ali mesmo sobre o balcão da cozinha em meio a cebolas, nabos e bererrabas. Uma salada sexual. Puro engano. Quando virou para mim, era um pudim de lágrimas. Temi o pior. Morte de um parente, por exemplo. Aos prantos e soluços explicou que o Deco passou mal e ela levou o pobrezinho para o médico. Ela chama veterinário de médico, como se o Deco fosse gente. O gato ja estava medicado e ela estava preparando uma “carninha moida para o doentinho”. Tudo com ele é “inho”. Quando eu tive aquela gripe forte no mês passado, nem canja de pacote ela me fez.
O ciúmes do Cunha não conhece limites. Tinha vezes que ele aparecia emburrado no trabalho. Aquela expressão característica delatava problemas com o Deco. Era a cara “perguntem-me o que aquele gato aprontou”. No happy hour, como sempre, alguém se encarregou de perguntar.
– Hoje é dia cinco – ele respondeu.- É o dia da contabilidade.
– Ja está no vermelho, Cunha?
– Não falo de dinheiro. Todo dia 5 eu faço a contabilidade dos dos beijos do Deco a dos meus.
– Como é que é?
– A Dora vive beijando aquele infeliz. Deve ter quilos de pelo no estômago. Eu conto quantos beijos ele ganha e quantos eu ganho no período. Tenho uma tabela estatística mensal. Aquela peste me ganha de lavada. Isso contandos só os beijos que acontecem na minha frente. Vocês fazem idéia do quanto isso dói? Eu levo flores e o Deco é que leva os beijos.
Nesses últimos tempos o Cunha andava meditabundo. Genuinamente tristonho, cabisbaixo. Não era a cara “perguntem-me o que o Deco aprontou”. Estava muito claro que o problema era realmente sério. Não estva indo ao bar com a turma, algo impensável. Até que um dia, o Cunha foi praticamente arrastado para lá pelos amigos após o expediente. Ele bebeu. Bebeu muito. E como todo mundo que bebe, acabou abrindo o seu coração.
– Olha, pessoal. Eu e a Dora não estamos mais juntos. É isso. Eu já andava desconfiado. Ela estava fria, distante.
– Bom, Cunha. Pelo menos olha pelo lado positivo. Você está se livrando do gato – alguém fez uma tentativa de animá-lo.
– Me livrando? Pois sim. A Dora se apaixonou pelo veterinário do Deco. Aquele que ela chama de médico. Saiu de casa e nos deixou. Eu e aquele gato. Dois cornos morando juntos.
One response to “Ciúmes”
Miaaaaaaaaaaaau!