O local do julgamento é um enorme depósito velho. Tem que ser, porque a concentração de pessoas também é enorme. Entre todos, chama a atenção o vasto uso do “tu”, do “bah” e do “capaz”, expressões ouvidas entre os inúmeros diálogos travados no local. Era o julgamento anual do herege do ano, promovido pelo CTG do B – Centro de Tradições Gaúchas do Brasil – que reúne os gaúchos que, por vários motivos, estão espalhados pelo nosso imenso país.
E a hora tão esperada finalmente chega. Num patamar mais alto entram perfilados o juiz, o taquígrafo, o acusado, cercado por dois guardas e o promotor. A pedido do acusado, ele mesmo iria se defender, até porque nenhum advogado seria louco de defender alguém de um crime tão grave. Muito mais grave ainda pelo fato de nunca ter sido negado pelo réu. Todos ocuparam os seus lugares e a gritaria que tomou conta da turba foi silenciada a golpes de martelo que o juiz desferia contra a mesa aos gritos de “ordem, indiada!”. Feito o silêncio, o juiz deu início a sessão. Logo após, o promotor tomou para si a palavra.
– Senhoras e senhores, irmãos das terras farroupilhas. Estamos aqui hoje para julgar este homem – aponta para o acusado – José Rocha, nascido em Porto Alegre, pelo crime de heresia. Este homem é acusado de não gostar de, que Deus me perdoe, costela.
Ao mencionar o crime a turba não se contém e começa a chamar o acusado de traidor aos berros e de punhos cerrados. Muitos pedem pena máxima. O juiz volta a bater com o martelo na mesa pedindo ordem naquela casa, ou melhor, naquele depósito. Após conseguir serenar os ânimos, o promotor continua.
– Este crime inominável, que atinge um dos sustentáculos de nossa cultura, que une chimangos e maragatos, gremistas e colorados, vem sendo cometido sem pudores por este senhor. Como vocês poderão ver, este homem fala abertamente, a quem quiser ouvir, e a quem não quiser, que não gosta de costela. E mais. Diz a todos que a simples visão de uma costela no espeto, com aquela fina e apetitosa manta de gordura causa-lhe ânsias.
Nova reação irada da multidão força o juiz a tomar providências novamente. Com muito trabalho, paciência e marteladas o juiz consegue o seu intento. O promotor chama a primeira testemunha, Marília Cunha, paulistana, vinte e cinco anos.
– Senhorita Marília – o promotor fala em tom calmo e sereno. – Conte-nos a sua experiência com o acusado na churrascaria Minuano.
– Bom, uma noite eu estava com vontade comer numa churrascaria e convidei o José, que é meu colega. Fomos ao Fogo de Chão. Os garçons, sempre muito gentis, passavam a toda hora na mesa, oferecendo todos os tipos de carne: picanha, maminha, lombo de porco, enfim, de tudo. Aí, um dos garçons, percebendo que o José era gaúcho, quiz ser gentil.
– E foi aí que aconteceu o grave fato, não foi, senhorita Marília? – interrompe o promotor encarando a platéia.
– Bom, não diria que é grave alguém não gostar de alguma coisa, certo? Gosto é gosto.
– Resuma-se a resposta, senhorita Marília.
– Este garçon trouxe um espeto de costela, que o José recusou. Disse que não gostava de costela.
– Ele disse mais uma coisa, senhorita, não disse?
– Disse, sim. Depois que o garçon se foi, ele disse que na verdade odiava costela e só não teve um ataque por educação, já que o garçon fez aquilo tentando agradar.
O garçon da churrascaria também foi chamado a depor e confirmou a história de Marília. A última testemunha foi chamada. Outro gaúcho, Marcelo Tavares, casado, 35 anos.
– Conte-nos, senhor Marcelo, o que aconeceu naquela festa.
– Seguinte assim, carinha: era aniversário de um amigo em comum. Eu conheci o José por lá e vendo que ele era conterrâneo começamos a conversar sobre a terrinha. Falávamos saudosos de muitas coisas e, num certo momento, eu falei da costela. Falei que não existe no mundo carne como costela.
– Por favor, senhor Marelo – interrompe o promotor. – Tente lembrar as palavras exatas mencionadas pelo acusado quando ele ouviu esta sua maravilhosa frase.
– Bah, quando eu falei que não tem no mundo carne como costela ele teve um chilique. Disse “Deus me livre! Eu acho um horror, um nojo. Aqueles ossos todos, aquela gordura. Se tem coisa que eu não como nem amarrado é costela”.Tchê, fiquei chocado. Minha vontade foi de surrar este traidor – apontando para o acusado – mas me contive.
Após todos estes testemunhos acachapantes, José foi chamado para dizer algo em sua defesa. Ele estava só, já que, como foi dito aqui, negar a costela é um crime tão hediondo que nenhum advogado aceita o caso. Advogados que tentaram, sofreram as consequências de tal ato: o preconceito e perseguição velados, porém persistentes, caindo em desgraça com os colegas, sendo jogados a um cruel ostracismo. Mas José seguiu firme em sua convicção.
– Não nego, senhoras e senhores, não gosto de costela.
Mais uma vez a multidão se enfurece e grita sem parar “Herege. Traidor”. O juiz mais uma vez a muito custo consegue reestabelecer a ordem. José segue o seu pequeno discurso.
– Sou livre para gostar e não gostar do que eu bem enterder. Tirem minha liberdade, minha vida, se quiserem, as nunca poderão simplesmente negar a verdade. Sim. Como eu, existem mais gaúchos que não gostam de costela. Eles se revoltarão contra esse comportamento medieval e revoltante. Quem viver verá.
Após seu emocionado discurso, José foi evidentemente condenado ao exílio permanente. Estava proibido de voltar a sua terra natal. Sua foto foi espalhada por todos os aeroportos, rodoviárias e churrascarias de estrada do Rio Grande do Sul. Se tentar entrar no estado será imediatemente detido. Dizem que o senhor Lauro e a dona Justina, pais do José, já deserdaram o filho em sessão solene na Semana Farroupilha. Eles não poderiam aceitar um filho subversivo.
One response to “A grande heresia”
Pior é pedir hamburger de picanha, morgado.