Aquilo era inadmissível, impensável e inacreditável. De tão absurdo ela simplesmente achou que não tinha ouvido direito. Mas uma coisa eram os ouvidos, outra o nariz. Não havia como negar. Era um pum. Um pum solto sem a menor cerimônia. Um pum incólume e poderoso pairando no ar. Não podia ser possível que ele tivesse o desleixo de soltar aquele pum e continuar olhando a televisão como se nada tivesse acontecido. Ela fez ainda uma tentativa, já que uma voz interna lhe dizia “e se escapou sem que ele pudesse segurar? agora ele está aí, nervoso, louco pra que você não tenha percebido.” Se isso tivesse realmente acontecido seria uma forma de respeito.
– Luiz Cláudio, você soltou um pum?
– Desculpe, amor.
Desculpe amor? Assim, com esta cara de sonso? Mas o que estava acontecendo? E o casamento? Como é que este cara dá um pum na sua frente e simplesmente pede desculpas com tamanha desfaçatez? Era pra ficar vermelho, cheio de vergonha, desconcertado. Até agora, quando eles tinham vontade de dar um pum, sempre disfarçavam. Ela, por exemplo. No caso de estarem assistindo televisão juntos e viesse aquela vontade, aquela que chega a doer na cintura, levantava e ia se segurando com passinhos bem curtos, como uma gueixa, até a área de serviço. Lá, devido a ventilação natural, o gás era levado para fora do apartamento. Ele nunca perguntou o que ela ia fazer de repente, vez por outra, na área de serviço no meio do filme. Nunca quis saber por que ela saía naquele passinho curto e voltava andando normalmente com uma expressão mais aliviada na face. Isso era respeito.
Por sua vez, ela nunca soube como e onde ele costumava soltar os seus gases. Ela tinha uma teoria. Ele conseguia controlar a saída com extrema maestria. Soltava pum na hora e no lugar que bem quisesse. Não tem gente que mexe com a orelha e coisas assim? Então é perfeitamente possível que alguém domine a técnica de soltar pum na hora e no lugar mais conveniente.
Mas tudo isso caiu por terra. Ele, Luiz Cláudio, seu marido, soltou um pum pela primeira vez na sua frente depois de três anos de vida a dois e nem ficou sem jeito. Aquele pequeno deslocamento de ar havia derrubado as bases sólidas sobre as quais o casamento entre os dois estava apoiado. Logo após gás se livrar das paredes do itestino e, completamente livre dos limites a que estava subjugado, espalhar-se pelo ar até chegar a seu nariz, não sem antes fazer uma pequena algazarra sonora na saída, ela tomou uma triste mas realista decisão: era preciso conversar. Hoje é um simples pum. Amanhã um arroto enquanto solta o cinto da calça após uma farta refeição e depois, sabe-se lá mais o que. Seria este este o caminho de todo o casamento? Um fim escatológico? Seria por isso que os seus pais se separaram? Era preciso cortar o mal pela raiz.
– Luiz Cláudio. Nós precisamos ter uma conversa. Muito séria – intima.
– Dá pra esperar uns minutinhos? Eu estou louco de dor de barriga.
E lá se foi o Luiz Cláudio para o banheiro com os mesmos passos curtinhos de gueixa que ela costuma dar quando visita a área de serviço. Não ouviu a porta do banheiro fechar. Talvez estivesse ficando paranóica. Por via das dúvidas, pegou o controle remoto e aumentou o som da televisão. Queria estar segura de não ouvir nada proveniente daquele banheiro.